domingo, 22 de fevereiro de 2015

O ministro estampado

Uma leitura da infância fazia menção à tesoura. Seu uso é perfeito para recortar as páginas desagradáveis nos livros. Os textos digitais facilitam a operação. Fica muito fácil recortar os trechos desagradáveis dos textos. Isso, com a vantagem de evitar papel picado.
Parece que o novo ministério de Dilma tem por objetivo contentar o mercado em todos os segmentos. No caso da educação, uma suspeita matéria (http://www.palavraoperaria.org/O-PT-e-uma-alternativa-na-educacao-ao-PSDB) dá a biografia do do atual ministro:
"Cid Gomes (ex-PSDB, PMDB, PSB, e atualmente no PROS) é o famigerado governador que disse que os professores deveriam trabalhar por amor. Além disso, foi um dos governadores que em 2008 apoiou a Ação Direta de Inconstitucionalidade contra a Lei do Piso Salarial dos professores, que garante uma remuneração mínima nacional para os professores e 1/3 da jornada para atividades extra-sala. Cid Gomes e sua experiência como prefeito na cidade de Sobral-CE tem sido invocado como modelo para os reformadores empresariais da educação. Ele também já declarou ser favorável que o salário dos professores seja vinculado a provas de mérito; propôs o aumento das avaliações externas sobre os alunos; e uma reforma que esvaziará o Ensino Médio. Cid Gomes é a pessoa escolhida para levar a cabo o PNE privatista que o governo Dilma aprovou ao final de seu primeiro mandato."
Em entrevista, (http://www.cartacapital.com.br/revista/837/cid-gomes-novo-ministro-educacao-670.html) o ministro é muito revelador:
"CC: Quando governador, o senhor enfrentou uma greve de 64 dias dos professores por salários em 2011.
CG: Enfrentei, mas o nosso calendário não foi prejudicado. Em Sobral, estabeleci a nucleação de escolas. Tenho a experiência de que escola boa é aquela com diversidade e quantidade de alunos. E é onde, pelo lado da administração, você pode concentrar esforços em pessoal e em recursos materiais. Penso que a nucleação de escola é boa, vou defender. Não posso obrigar ninguém a fazer, mas as políticas públicas definidas pelo ministério levarão em conta essa iniciativa. Vou citar um caso concreto: quando assumi, Sobral tinham 135 escolas. Discutimos e concentramos em 32.
CC: As demais foram fechadas?
CG: É um tabu fechar escola. Não encerrei as atividades em nenhum prédio, pois sabia que eram a única referência de poder público no lugar. Procurei melhorar os prédios e transformá-los em espaços dedicados à educação infantil ou em centro comunitário. Para tratar de educação é melhor ter menos escolas, com melhor estrutura, corpo diretivo e participação da comunidade. Isso dá a possibilidade de haver, de fato, uma relação racional professor-aluno. Eu posso ter uma situação em que a turma do 6.º ano só tem sete alunos. Se tenho escola nucleada, vou ter uma margem muito maior para fazer turmas com um número razoável.
CC: Qual a sua política de valorização do professor?
CG: Quando falo em redução das escolas, também penso nesse ponto. Valorizar o professor não é abrir um sem-número de vagas de trabalho e pagar merreca para eles, subexplorar. Valorizar é dar a ele oportunidade de ganhar bem e o município só pode pagar melhor se a relação professor-aluno for razoável."
Temos aí o ministro da Educação estampado. E não faz questão de esconder nossos principais mitos nacionais sobre a questão. "Professor deve trabalhar por amor". Da mesma forma que os jesuítas catequizavam indígenas no século XVI.
Salas vazias são despesas. Essas precisam alcançar uma proporção razoável, permanecerem cheias.
A presidenta utilizou o slogan "Brasil pátria educadora" e depois anunciou um corte de 7 bilhões para a educação. Somado a esse quadro, a nomeação de um "administrador" de outra área para esta pasta não parece muito auspicioso. Certamente vão haver mudanças na educação, mas duvido que sejam boas.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Receita de governo

Observatório da Imprensa

Recentemente, o estado do Paraná foi palco de uma efetiva manifestação de funcionários públicos. O governador, por intermédio de seu líder na Assembleia, propôs um pacote de medidas austeras que retiravam vários benefícios do funcionalismo e principalmente davam acesso ao executivo a um fundo de cerca de 8 bilhões de reais destinados à aposentadoria dos servidores. É bom ressaltar que o Paraná foi um dos estados da federação em que mais se cresceu a arrecadação de impostos. Pelas redes sociais, os manifestantes agradeceram ao governador por ter desempenhado um papel crucial na organização do funcionalismo.

Elencamos abaixo algumas práticas do governador que contribuíram para o atual estado de coisas:

1) Como em outros governos, foi muito importante para o governador se rodear de pessoas de sua confiança. E nesse caso, quem é de mais confiança que a própria família? Claro que essa prática também é chamada de nepotismo. Atualmente o governador mantém em cargos importantes o irmão a mulher. A soma dos salários da família do governador custará aos cofres do estado em 2015 custará cerca de 1 milhão de reais, conforme noticia o site do Partido dos Trabalhadores (ver aqui): “Governador com maior salário do país, Beto teve o salário reajustado recentemente e vai receber R$ 33,7 mil por mês. Já Fernanda e José Richa Filho, secretários de estado do Trabalho e Desenvolvimento Social e Infraestrutura e Logística receberão mensalmente R$ 23,6 mil cada”;

2) Valorização excessiva de funcionários comissionados em detrimento de servidores de carreira. No primeiro mandato do governador, uma matéria da Gazeta do Povo (ver aqui) descreve a situação: “Pela segunda vez em quatro meses, os salários dos servidores com cargos em comissão do governo do Paraná vão ser reajustados. Em julho, os comissionados receberam o mesmo porcentual concedido ao funcionalismo: 6,5%. Na terça-feira passada, véspera de feriado, foi publicado no Diário Oficial o Decreto nº 2.970/11 com um novo aumento, desta vez bem mais expressivo. Os reajustes variam de 63% a 128% e beneficiam cerca de 4 mil pessoas que têm cargo de comissão, de indicação política, na gestão de Beto Richa (PSDB). O impacto na folha de pagamento será cerca de R$ 7 milhões a mais na folha de pagamento referente a outubro.


Servidores públicos concursados que tomaram conhecimento do decreto escreveram à Gazeta do Povo e disseram estar indignados. O governo estadual tem reiterado que não pode conceder aumento expressivo a determinadas categorias, como os policiais militares, por causa do inchaço da folha de pagamento. O dado mais recente, referente a agosto, mostra que o pagamento de pessoal consumiu R$ 8,5 bilhões nos 12 meses anteriores. O limite prudencial, estipulado pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), é de R$ 8,6 bilhões.”

No início de fevereiro, conforme noticiado pelo Blog do Esmael (ver aqui), “em 6 de janeiro de 2014, através do decreto 9865, na surdina, o governador Beto Richa (PSDB) autorizou o pagamento da ‘gratificação de encargos especiais’ será paga em valor fixo (…) Na prática, o reajuste 30% para os ocupantes de cargos em comissão vai na contramão do discurso da austeridade e do respeito ao limite Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) – que foi a base do argumento do governador para dizer que não teria como pagar R$ 100 milhões atrasados à valores de avanços na carreira (progressões e promoções) em atraso há vários meses, bem como a implantação de 33% da hora-atividade nas escolas”.

Uma medida saudável para um governo de sucesso é ter maioria entre os parlamentares. Nem sempre a dita maioria se consegue facilmente. E mesmo quando essa é conseguida também pode-se perdê-la, dependendo do impacto e repercussão dos projetos do executivo. Não é nem necessário mencionar que manter a lealdade de deputados pode custar caro e nem sempre pode dar certo. Como podemos ver aqui: “O deputado Adelino Ribeiro (PSL) acusou o governo de chantageá-lo para votar a favor do pacote de medidas de austeridade. Durante a sessão de ontem, ele disse que o secretário da Saúde, Michele Caputo, condicionou a liberação de um ônibus para o transporte de pacientes de um município da base eleitoral do parlamentar ao voto favorável ao projeto do governo. O secretário negou as acusações e disse que sequer conversou com Ribeiro";

Para um governador de estado é sempre importante manter a opinião pública ao seu lado. Nisso o governo Richa não poupa esforços, nem verbas. Mesmo no estado caótico em que as finanças públicas do Paraná se encontram, os gastos com publicidade são indispensáveis. De acordo com o blog do Esmael (ver aqui), em 2013, o governo Beto Richa “torrou em doze meses a espetacular quantia de R$ 240 milhões. Lembro aos mais desavisados leitores que essa dinheirama não saiu do bolso do tucano, mas de todos os paranaenses, pois se trata de recurso público”. O mesmo veículo (aqui) informa, no corrente mês, gastos de “mais de R$ 400 milhões, em publicidade e propaganda”.

Por último e não menos importante, o governador sempre diz o contrário do que faz. Se afirma como democrata e com grande estima pela coisa pública, menciona o momento econômico ruim e a difícil aceitação de medidas antipáticas. Como mostrado em simulacro de entrevista (ver aqui).

Essa é a receita de governo de Beto Richa. Tais ingredientes utilizados de forma harmoniosa podem conferir um importante legado político a um estadista, mesmo sendo de uma imoralidade escancarada. Mas utilizados de forma estabanada podem manchar uma biografia. Ao que tudo indica a segunda opção já se concretiza.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

A palmada papal

Observatório da Imprensa

Nos últimos tempos, até reluto em acompanhar telejornais matinais; me soam ofensivos. Mas hoje, entre o gesto de ligar o aparelho de TV e já iniciar a busca dos canais infantis, como de costume depois que meu filho passou a apreciar os desenhos animados, um comentário chamou minha atenção: o papa Francisco disse que é permitido dar palmadas em crianças (ver aqui).

Acompanhei a peça meio que boquiaberto. A correspondente internacional disse ter repercutido mal a afirmação do pontífice em todos os países europeus, onde na maioria as palmadas são proibidas, inclusive aqui no Brasil. A apresentadora do telejornal lamentou a atitude do argentino Francisco e torce por uma retratação se declarando fã do mesmo. O xará do papa ao lado da moça se resignou a um silêncio obsequioso.

Não nego que, primeiro, tive uma sensação reconfortante, isso mesmo, me senti bem por não acompanhar sistematicamente os telematinais. As tantas coisas que poderiam serem ditas sobre a declaração super reveladora do chefe desse grande clube do bolinha, da igreja, não poderiam se dizer ali. Logo, podendo optar, continuarei não acompanhando.

A Igreja Católica é uma instituição milenar que exclui seus funcionários da seara reprodutiva. Mas os auto-intitulados guias espirituais se julgam com a responsabilidade de orientar seus fiéis com relação à criação de seus filhos. Essa ironia é maravilhosa: o papa Francisco, que oficialmente não pode ter filhos, aconselha seus fiéis a utilizar do expediente da violência na formação educacional da sua prole.

Interferir na educação não é uma coisa nova para a Igreja católica. O perfil de profissional da educação foi todo moldado por essa instituição. No século 16, os primeiros professores que exerceram essa atividade em nosso país eram irmãos da Companhia de Jesus, jesuítas. De lá para cá outras tantas ordens religiosas se dedicaram à tarefa de ensinar. Isso pode ajudar a entender o motivo de alguns dos próprios professores acreditarem ser portadores de uma missão e que podem oferecer a salvação aos alunos que levarem em conta o que eles têm a dizer.

Contribuir com o perfil dos professores como missionários abnegados não basta à Igreja. Os sermões de seus funcionários, durante seus rituais religiosos, certamente têm alguma dimensão formativa, mas foi-se o tempo em que as palavras dos padres eram realmente ouvidas e levadas a sério, uma vez que deixaram de ser os únicos detentores do conhecimento e que outros atores sociais dividem o fardo de civilizar a sociedade.

Na verdade, os fiéis ouvem, das palavras dos sacerdotes, as que lhes parecem plausíveis e razoáveis. O chefe da Igreja católica aconselhar as famílias a aderirem à violência, felizmente não é garantia de que essas o farão. Não fosse dessa forma, a população dos países católicos seria bem mais numerosa, considerando que a Igreja e seus funcionários, ao menos oficialmente, proíbem o uso de métodos contraceptivos. Diga-se de passagem que, para o Brasil, os fiéis não levarem essa não adesão aos contraceptivos não está sendo muito bom, considerando que a taxa de natalidade está abaixo do nível de reposição.

Mais digno para um líder religioso seria dizer conversem com seus filhos, conheçam-nos, passem mais tempo com eles, dialoguem. Isso pode parecer um clichê, embora seja acertado. Mas não, o chefe da Igreja preferiu dizer: podem usar de violência, não batam na cara que é humilhante. Caberia agora um outro clichê, bobo até, violência gera violência, ou coisa do tipo, mas esse apesar de ser verdadeiro já se desgastou pelo uso.

Só me resta imaginar o comentário que gostaria de ouvir no telejornal e um comentário que talvez me animasse a voltar a acompanhar esse tipo de programa. Mas esse é impossível num meio tão católico, onde a correspondente internacional mal teve tempo de dizer que o conselho papal soou como ultrapassado, a apresentadora, fã confessa, mal expressou uma discordância amarelada e o colega ao lado adere a um silêncio devoto.


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José Alexandre é professor

domingo, 19 de maio de 2013

Licenciatura e formação de professores: quando o lugar prejudica a visão dos fatos




Norberto Eliaquim
professor de história

No seu livro A Visão em Paralaxe o filosofo Slavoj Zizek demonstrou a dificuldade da conciliação de dois pontos de vista diferentes sobre o mesmo assunto. Um texto, nesse espaço, discorreu sobre a questão das licenciaturas e da formação de professores, mas ao que parece, o ponto de vista do autor não lhe permitiu tocar nas causas reais dos problemas enfrentados pela formação profissional daqueles que estão à frente das salas de aula nesse país.

Há alguns anos, li os resultados de uma pesquisa que relatava o fato de a maioria dos professores terem sido criados em casas sem livros. Absolutamente real, pensei na época. Desempenho essa profissão e meus pais semiletrados não tinham o hábito da leitura que tive de aprender depois a ferro e fogo por conta de meu curso de graduação, uma licenciatura. Mas onde estavam meus contemporâneos com o raro hábito da leitura nesse país e com livros em casa enquanto cursava minha faculdade? Provavelmente num curso de Medicina ou Direito.

A escola pública da primeira metade do século XX e de parte da segunda metade não ensinava bem por os livros da época serem melhores que os de hoje, que aliás alguns são ótimos. É pelo fato de que atendia pouca gente, pessoas de classe media ou mesmos das classes mais baixas que queriam que seus filhos estudassem. Uma época de ouro que alguns colegas de profissão mais próximos da aposentadoria sentem muitas saudades pois eram respeitados.

Com a massificação do ensino, a inclusão nas escolas de pessoas que não estão preparadas para o convívio em um ambiente que lhes exige o que nunca lhes foi dado, a escola pública degringolou. As elites brasileiras sempre foram extremamente burras e nunca pensaram que os pobres também faziam parte da nação. Esses, por sua vez mimetizaram aversão ao conhecimento e à cultura e passaram a mandar seus filhos para a escola à contragosto.

Entre 1964 e 1985 tivemos a praga da Ditadura Militar que empurrou goela à baixo da Universidade uma reforma que a deixou com seus cursos parecidos com uma continuação do Ensino Médio, criou as licenciaturas curtas, proporcionando formação curta, para professores com salário curto exercer uma semi-profissão. Herdamos desse período uma série de vícios que talvez nem consigamos corrigir. Um dos principais pode ser o de termos feito do magistério uma profissão indigna, desonrosa e incapaz de atrair os alunos mais talentosos.

O apoio do Estado às escolas particulares, que outrora não eram consideradas escolas de verdade, tornou nossa educação pública falida. O país precisa de engenheiros, mas alguns alunos meus do Ensino Médio não vão ser bons frentistas, nada contra os simpáticos rapazes que abastecem meu carro velho motor 1.0. Minha geração aprendeu muito pouco na Universidade não apenas pelo fato de a academia ter problemas que ainda não conseguiu corrigir.

Sem ofensas, nós professores somos os piores alunos de nossa geração, os menos preparados, os com menos chances. Resultado: fizemos licenciatura. Os mais talentosos ingressam no Ensino Superior, pois ninguém é bobo. Lidar com pessoas que não valorizam o que o suposto profissional, supostamente, sabe fazer é algo que se deve evitar quando possível. O de mais é evitar que os filhos sigam os mesmos passos, caprichar para que tenham uma educação que lhes possibilitem passar nos vestibulares de bacharelado com profissões mais honrosas.

Por isso deixamos boa parte de nossos salários em escolas particulares que apenas instrumentalizam nossos filhos a passar num vestibular concorrido. Apenas isso e só. Pois uma educação de qualidade também não são capazes de proporcionar. Aos colegas de profissão que escolheram ser professor inspirados por um antigo mestre ou esperando semear algo de bom no mundo só posso dizer uma coisa: meus pesares. Talvez muito esparsamente consigam o carinho de um aluno ou consigam também inspirar alguém. Se contentem com isso que pode ser gratificante, mas infelizmente não ajuda a pagar as contas.

Aos que acreditam que os problemas da educação superior estão apenas no modelo de Universidade e nas fogueiras de vaidade dos professores acadêmicos, sugiro que olhem para a coisa de um lugar diferente e que tentem ver a coisa como um quebra-cabeças complicado. Talvez percebam que apenas carregam alguma mágoa de seus antigos mestres. Também peço que se lembrem do sentido das palavras do filosofo iluminista Voltaire, que às vezes me vêm a mente quando leio algo. Esse se dizia capaz de dar a vida pela liberdade de expressão, mesmo daqueles que diziam as maiores idiotices.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O Saep, novo sistema de avaliação em massa na educação paranaense

Em 22 de novembro de 2012 foi realizada pela primeira vez a prova do Sistema de Avaliação da Educação Básica do Paraná (Saep). Conforme noticiado pelo veículo de informação da Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed-PR): “O novo sistema foi desenvolvido para medir a aprendizagem dos estudantes e para subsidiar os professores na prática docente, facilitando a formulação e o monitoramento de políticas educacionais.” Conforme matéria mais esclarecedora da Gazeta do Povo: Além de medir a aprendizagem dos alunos, o sistema será composto por questionários sobre práticas pedagógicas e de gestão, que devem ser respondidos por professores e diretores, respectivamente.

Evidente que tais sitemas de avaliação não são novidade alhures, de acordo com matéria de Carta Capital: “Em São Paulo, alunos dos Ensinos Fundamental e Médio participam do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), desde 1996. Em Minas Gerais, os alunos são avaliados pelo Sistema Mineiro de Avaliação da Educação Pública (Simave). Já no Rio Grande do Sul, os estudantes são avaliados pelo Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Rio Grande do Sul (Saers).”

Na prática o governo tucano do paranaense Beto Richa está seguindo um caminho já batido em termos de educação: avaliação massiva dos alunos, ranqueamento das escolas, para bonificar por mérito os professores das escolas cujos alunos se saiam bem nas futuras avaliações, por mais que se neguem que os objetivos sejam esses. A mesma trilha já foi feita pelos EUA nos anos 1990 e trouxe graves problemas para o sistema educacional público norte-amreicano, mas é de praxe em nosso país copiar o que acontece no exterior sem um diagnóstico correto de nossos problemas reais e se as ideias vindas de fora são as mais adequadas para nosso contexto.

No Brasil existe um grande movimento atuando em várias frentes para e concorrendo para uma educação pública que atenda exclusivamente as demandas do mercado. Uma dessas frentes é o movimento Todos pela Educação criado e presidido pelo empresário Jorge Gerdal que já declarou ter pensado em fazer algo pela educação quando percebeu que não havia mão de obra qualificada no país para suprir a demanda por trabalhadores em sua própria empresa.

Outro braço dessa frente se encontra na grande mídia com bastante ênfase no Grupo Abril, amplamente subsidiado pelos governos tucanos de São Paulo. Basta dar uma passada de olhos na coluna da revista Veja do senhor Gustavo Ioschpe que se auto intitula especialista em educação e também em uma publicação voltado para o meio escolar, Nova Escola. Outra face desse movimento está infiltrada na academia e nas secretarias de Educação para levar adiante políticas educacionais, fadadas ao fracasso, como a que se inicia no Paraná com a fase da avaliação massiva, que já vem recebendo algumas boas análises críticas.

 Em matéria da Gazeta do Povo podemos ler que “Para o doutor em Políticas Educacionais Ângelo Ricardo de Souza, membro do Núcleo de Pesquisa em Políticas Educacionais da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a prova poderia ir além do que se propõe. 'Pensei que a Seed iria incluir outras disciplinas e conteúdos, ou que faria o exame por amostragem, usando outros instrumentos além da prova […]' o Saep fará o mesmo que o Ministério da Educação já faz com a Prova Brasil e o Saeb. Para ele, se os resultados dessas duas provas nacionais fossem mais estudados, o novo exame estadual seria dispensável, evitando os custos de impressão e distribuição dos mais de 600 mil cadernos de questões.

 Ou ainda, em Carta Capital, sobre o que já ocorre com outros sistemas de avaliação a respeito do aproveitamento de seus resultados “Em meio a tantas avaliações, em qual medida os resultados obtidos vêm sendo aproveitados pelos gestores e professores de modo a contribuir para a revisão e formulação de políticas públicas da educação? […] A resposta varia de acordo com cada sistema de ensino ou local. Como a gestão da Educação Básica é descentralizada, os mesmos resultados são aproveitados de maneira distinta por estados e municípios. 'Alguns utilizam os resultados de forma economicista e meritocrática enfaticamente, outros estão meio perdidos, e outros avançaram no sentido de utilizá-lo como termômetro na redefinição da política de seu sistema de ensino' [...]”.

 Ao que parece já fizemos nossa opção e essa só vem se consolidando de região em região: avaliação massiva, ranqueamento e bonificação dos professores por mérito. Eis a tríade que, se pretende, vai tirar o sistema educacional publico brasileiro do fracasso e alçá-lo ao sucesso. Escolas caindo aos pedaços, aulas em meio período e condições de trabalho e remuneração dos professores, de acordo com nossa opção, não interfere na aprendizagem dos alunos. A curto, médio e longo prazo o resultado só pode ser um, mais fracasso na educação.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A história como terreno de disputas

Uma escritora da infância deu a ideia de como seria bom recortar de um livro apenas as coisas bonitas, o que valesse à pena ser lido. Pra mim seria um grande exercício e antes da era da internet uma grande picotação à base da boa tesoura, mas na ordem do texto digital ficou bem mais fácil. Acontece que em alguns segmentos, como a grande mídia, escolher coisas bonitas, boas e justas para recortar ficou difícil, então sigo minha natureza pessimista de notar mais o que é feio, ridículo e desarrazoado. Nesse caso sobre um assunto que afeta diretamente a minha corporação, a legalização da profissão de historiador.

Em 07/11/2012 o presidente da ANPUH (Associação nacional de História) Benito Schmidt divulgou uma nota afirmando que “nosso projeto de regulamentação da profissão de Historiador foi aprovado no plenário do Senado Federal”. Curiosamente eis o desarrazoado, na matéria “Historiador? Só com diploma” o jornalista Fernando Rodrigues da uma grande demonstração de má-fé (é preferível crer que seja isso ao invés de ignorância) ao escrever que

[…] se vier a ser aprovada pela Câmara e depois sancionada pela presidente da República, a nova lei impedirá que pessoas sem diploma de história possam dar aulas dessa disciplina. […] A proposta é de um maniqueísmo atroz. Ignora que médicos, sociólogos, economistas, engenheiros, juristas, jornalistas ou cidadãos sem diploma possam acumular conhecimentos históricos sobre suas áreas de atuação. Terão todos de guardar para si o que aprenderem.”

Curiosamente o jornalista se nega a entender que o projeto, cujo trecho é citado na sua própria matéria, afirma que “O exercício da profissão de historiador, em todo o território nacional, é privativo dos portadores de diploma de curso superior em história, expedido por instituição regular de ensino”. O “exercício da profissão” diz o texto e isso não impede que outros profissionais ou intelectuais acumulem conhecimentos históricos ou escreveram livros sobre história como alguns jornalistas o fazem, citando como exemplo Eduardo Bueno, Elio Gaspari e Laurentino Gomes.

Nessa mesma direção vai a resposta do presidente da ANPUH publicada no site da instituição em 14/11/2012

Nós, historiadores profissionais, sabemos que uma das regras básicas do nosso ofício é a elaboração de um discurso de prova, assentado na pesquisa e na crítica dos vestígios do passado, os documentos. Fernando Rodrigues, por não ter essa formação, talvez desconheça essa regra tão elementar e, por isso, não se deu ao trabalho de ler com atenção o documento que deveria balizar a sua análise […] Em nenhum momento este projeto veda que pessoas com outras formações, ou sem formação alguma, escrevam sobre o passado e elaborem narrativas históricas. Apenas estabelece que as instituições onde se realiza o ensino e a pesquisa de História contem com historiadores profissionais em seus quadros, por considerar que, ao longo de sua formação, eles desenvolvem habilidades específicas como a crítica documental e historiográfica e a aquisição de conhecimentos teóricos, metodológicos e técnicos imprescindíveis à investigação científica do passado. Da mesma maneira, a regulamentação pode evitar que continuem a se verificar, nos estabelecimentos de diversos níveis de ensino, situações como a de o professor de História ser obrigado a lecionar Geografia, Sociologia, Educação Artística, entre outras disciplinas, sem ter formação específica para isso (e vice-versa).

Vai no mesmo viés de crítica a opinião do leitor “Historiador comenta artigo sobre lei que regula sua profissão” publicada em 12/11/2012:

[...] você confunde o acúmulo de conhecimento pura e simplesmente como um conhecimento historiográfico. Há que se diferenciar o que seja memória daquilo a que chamamos historiografia. Acúmulo todos temos: lemos biografias, lemos jornais, vivenciamos períodos conturbados como guerras, conflitos sociais e outros tantos. Mas isso não nos dá a técnica de pesquisa -aquele conjunto de conhecimentos a respeito do saber inquirir documentos, separá-los, reorganizá-los e criticá-los.

Difícil acreditar que o jornalista Fernando Rodrigues tenha feito uma leitura ligeira do texto do projeto ou que não tenha traquejo o suficiente com a língua portuguesa, o que o teria impedido de compreender o teor do documento. Seus pares autores de biografias, ou reportagens cujo conteúdo tenham por base fontes históricas de forma alguma seriam impedidos de continuar publicando seus livros, pois seria um absurdo se o projeto que tenta regulamentar a profissão de historiador tivesse tal intenção. Apenas objetiva que algumas funções da área, como lecionar por exemplo, exijam um profissional habilitado em história. Lendo o texto de Fernando Rodrigues lembramos que o jornalismo também precisa de algo equivalente e com urgência.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Por um amplo boicote à profissão docente

Leitore(a)s responsáveis por jovens que estão no momento de escolher suas profissões, venho fazer-lhes um apelo, desnecessário aos mais sensatos, pois é algo feito por esses sem êxito: não permita de forma alguma que seu filho(a) seja um(a) professor(a). Os motivos são logo sabidos ou imagináveis, mas além de evitar que sua prole tenha um emprego com parcos rendimentos e sua integridade física e mental possa ser constantemente ameaçada, o boicote à malfada profissão docente pode contribuir para que essa venha a se tornar decente.

Não estranhe ainda o fato de um professor aconselhar tal boicote, nessa corporação nós o praticamos, principalmente os que lecionam em escolas públicas. O fazemos primeiramente pagando altas mensalidades em escolas particulares para nossos filhos, pois conhecemos nosso ambiente de trabalho e caso nossos herdeiros o frequentassem teriam chances menores de ascender à outra profissão mais respeitável. Afinal, como já havia notado o sociólogo Pierre Bourdieu, famílias de "classe média" investem mais pesado na educação dos filhos.

É necessário ressaltar que as escolas particulares não são necessariamente boas, apenas tem a possibilidade de excluir do convívio dos filhos de seus clientes jovens marginais e mesmo outros que não se adequem ao modelo ultrapassado de escola que temos em nossa sociedade. Basta lembrar os resultados da avaliação do IDEB 2011 do ensino médio, enquanto a grande mídia fez um estardalhaço a respeito da baixa média das escolas públicas e particulares juntas, 3,7, numa escala de 0 a 10, se esqueceu de perceber que o 5,7 das escolas particulares também é uma nota baixa.

O mesmo vale para as festejadas escolas militares que conseguiram as melhores notas do país, 6,7, seu segredo não repousa em disciplina e hierarquia. O motivo das altas notas dessas escolas é a possibilidade de escolher seu público, já que seus alunos são essencialmente filhos de oficiais e os demais enfrentam rígida seleção para ingresso. Mantendo de fora a parcela da população escolar que não é afeita à chatice da escola, essas escolas garantem suas notas regulares. Claro que selecionar alunos não é permitido a outras instituições.

É justo que todas as parcelas da sociedade tenham acesso à educação, afinal uma instância socializadora como a escola pública não pode selecionar alunos. Um país não pode permitir que seus cidadão mirins sejam privados de ensino, ainda que crianças de onze ou doze anos tenham que conviver com traficantes e homicidas. Tal convívio é garantido país afora por promotores da infância e da juventude, na crença de que a educação pode salvar os que já estão visivelmente perdidos para drogas e outros males.

Resta saber o que a falta de professores, que já está em curso, pode ajudar a melhorar a situação da profissão. Os professores são de fato necessários para a sociedade? Se respondermos que sim, os salários e as condições de trabalho vão ter que melhorar. Um elemento que pode ajudar a pressionar nossos políticos é a falta generalizada de professores, se esses escassearem o suficiente aqueles terão se fazer algo, muito embora alguns já estejam demonstrando o contrário. Os melhores alunos dessa geração já não querem essa profissão e é preciso que muitos mais não queiram para que melhore.

As licenciaturas à distância que se espalharam pelo país como resposta do governo federal ao abandono da profissão constituem uma medida meramente paliativa visando garantir um número alto de professores com um investimento mínimo em sua formação inicial e isso é sintomático do pequeno esforço feito para solucionar o problema. A maioria dos estudantes que optam por licenciaturas, presenciais ou virtuais, o fazem por acharem que não tem chance ingressar em cursos mais disputados, o ensino à distância não vai resolver esse problema. Mesmo que no ano de 2010 houvesse 1,7 milhão de vagas nessa modalidade, ainda faltam professores. Fica o apelo do boicote generalizado à profissão docente.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Teoria da Dependência no Jornal Nacional

Observatório da Imprensa 06/05/2012

O nome de Fernando Henrique parece ser a bola da vez. O sociólogo e ex-presidente brasileiro entrou para o centro das atenções da grande mídia ao receber da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos o polpudo Prêmio Kluge. Em reportagem de Luís Fernando Silva Pinto, 11/07/2012, FHC recebe prêmio dos EUA por atuação nas ciências humanas, podemos ouvir e ler que: "Os organizadores do prêmio lembraram que, há 50 anos, Fernando Henrique já dizia que países em desenvolvimento deveriam se abrir ao capital externo e se integrar ao modelo econômico mundial. A teoria nem tinha nome na época. Hoje, é conhecida como globalização."

Teoria que nem tinha nome? Globalização? Por qual motivo uma reportagem do badalado Jornal Nacional utiliza de subterfúgios para se referir a uma teoria conhecida no meio acadêmico das ciências humanas? Em matéria do Correio Brasiliense, FH e o Prêmio Kluge, já não vemos tal precaução: "Autor de 23 livros e 116 artigos acadêmicos, coformulador, com Enzo Faleto, da Teoria da Dependência, a escolha de FH foi atribuída às duas condições, a de intelectual e a de político."

Ao que parece o termo teoria da dependência foi considerado pesado para os telespectadores do Jornal Nacional. De acordo com a teoria da dependência os países latino-americanos se encontram em situação de atraso graças aos ciclos de dependência externa que lhes são intrínsecos, a dependência colonial, a primário exportadora e a dependência tecnológico-financeira. As interpretações guiadas por essa teoria nos impediram no Brasil, e onde mais teve influência, de ter uma consciência maior dos problemas internos, da relação entre Estado e Sociedade e do papel de nossas próprias elites na perpetuação da situação de dependência.

A reportagem do Correio diz ainda que FHC foi escolhido para receber o prêmio devido às condições de intelectual e político. Há algumas semanas o sociólogo Chico de Oliveira afirmou que FHC, seu colega no CEBRAP, havia chegado a ingressar no Partido Comunista, para espanto de uma jornalista entrevistadora. E quando inquirido sobre o que havia Fernando Henrique mudar de polo ideológico de forma tão radical, Oliveira respondeu: acho que ele entendeu que nunca alguém de esquerda chegaria à presidência da República no Brasil.

Na entrega do Prêmio Kluge FHC pronunciou discurso em inglês. Certamente uma ocasião para matar as saudades do período em que era Presidente e fazia pronunciamentos em outros países, mas nunca na língua oficial do Estado o qual era chefe. Alguns atribuíam isso à sua vaidade de pavão, mas o gesto deixa uma mensagem clara: sou civilizado, sei falar seu idioma e meu país vai se abrir ao capital internacional sim; de forma tão escancarada que vai continuar onde sempre esteve. Vamos ser os melhores, em matéria de dependência.

Em palestra, na Universidade Estadual de Ponta Grossa UEPG, o deputado federal Florisvaldo Fier, Dr. Rosinha, afirmou que havia perguntado ao Ministro das Relações Exteriores do governo Lula, Celso Amorim, se esse havia tirado seus sapatos para entrar nos EUA. Amorim responde que se tivesse de tirar não entraria. Numa postagem do blog de Paulo Henrique Amorim é reproduzida uma fala de Lula: "'Ministro meu que tirar o sapato deixará de ser ministro’, disse ele, no Itamaraty, ao comentar uma ordem que teria dado a seus colaboradores no início do Governo". Amorim emenda: "Lula se referia ao ministro das Relações Exteriores do Farol de Alexandria, Celso Lafer – um dos chanceleres da GloboNews – que, nos Estados Unidos, em 2002, na qualidade de chanceler, tirou os sapatos no aeroporto para funcionário da segurança."

Na reportagem de Silva Pinto é mencionada uma teoria que nem tinha nome na época. O Prêmio Kluge pode não ter sido dado a Fernando Henrique apenas por esse ter dito ha bastante tempo que países como o Brasil deviam se abrir ao capital externo, mas também pelo motivo de enquanto Presidente do Brasil ter criado e levado a cabo a Teoria da Subserviência.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O mundo de fantasias do senhor Gustavo Ioschpe

Observatório da Imprensa 03/07/2012

Sempre que leio algum texto de Gustavo Ioschpe me pergunto de qual mundo de fantasia esse senhor saiu. Não foi diferente dessa vez quando me deparei por acaso com “As escolas não são públicas. E privatizar não resolver”, Veja - 25/06/2012. Quem conhece minimamente de perto a caótica realidade educacional brasileira sabe que o conteúdo dos artigos de Ioschpe não podem ter por base o mundo real. Se não são fantasias, são delírios ou devaneios. Fosse de outra forma, não escreveria que o Brasil já gasta o suficiente para ter um sistema de ensino eficiente.

Na sua análise “do problema educacional brasileiro é que já temos, em linhas gerais (sempre há sobras e excessos em um país enorme e descentralizado como o nosso), tanto o financiamento quanto o arcabouço institucional para dispormos de uma educação de qualidade. Os melhores sistemas educacionais do mundo gastam basicamente o mesmo que nós e também têm a maioria de suas matrículas em escolas públicas, como nós. O que falta para iniciarmos a melhoria é demanda popular por uma educação de qualidade. Sua ausência gera falta de ação da classe política, dos gestores de escolas e dos professores.”

Concordamos que falta demanda popular por uma educação de qualidade, mas isso está longe de ser a única coisa a não grassar na realidade educacional. Nas palavras de Frei Betto, em “Ações do documento Educação: da quantidade à qualidade”, Correio Braziliense - 14/01/2011, a “Análise de 39 países, feita pela OCDE em 2010, revela que o investimento do Brasil em educação corresponde a apenas 1/5 do que os países desenvolvidos desembolsam para o setor. EUA, Reino Unido, Japão, Áustria, Itália e Dinamarca investem cerca de US$ 94.589 (cerca de R$ 160 mil) por aluno no decorrer de todo o ciclo fundamental. O Brasil investe apenas US$ 19.516 (cerca de R$ 33 mil)”.

No editorial de, O Estado de S. Paulo - 28/05/2012, intitulado Os salários dos professores, podemos ler que: “Depois de terem recebido reajustes acima da média na última década, os professores da educação básica continuam com os salários mais baixos do País, entre os profissionais de nível superior. São cerca de 2 milhões de profissionais que atendem mais de 50 milhões de crianças e jovens.(...) Em 2000, a renda média de um docente do ensino fundamental equivalia a 49% do que ganhavam os demais trabalhadores com nível superior. Em 2010, a relação aumentou para 59%. No ensino médio, a variação pulou de 60% para 72%. Em média, um médico e um engenheiro civil receberam R$ 7.150 e R$ 6.015 mensais, na última década. Os médicos e engenheiros também tiveram a menor taxa de desemprego no período - 0,7% e 1,7%, respectivamente. Já o salário médio dos docentes da educação básica ficou em torno de R$ 1.878 e a taxa de desemprego foi de 3%, entre 2000 e 2010.

Com os dados acima, não podemos concordar de forma alguma que já temos o suficiente em matéria de financiamento da educação e se falássemos em condições estruturais das redes de escolas públicas do país a situação seria ainda mais trágica. Mas levando em conta apenas os vencimentos dos professores, o que autoriza o senhor Ioschpe a dizer que: “as escolas brasileiras não são públicas, se por público entendemos “relativo ou pertencente a um povo, a uma coletividade" (Honaiss). As escolas ditas públicas no Brasil são, em alguns casos, escolas estatais, que estão lá para servir os desígnios dos ocupantes do poder político. Na maioria dos casos, são escolas corporativas, cuja função principal é defender os interesses de seus professores e funcionários.” ? Pois se assim fosse os professores seriam a profissão de nível superior com um dos menores vencimentos?

Poderíamos responder que o referido autor escreve ficção, que seus artigos na revista Veja são crônicas com 90% de fantasia e 10% de realidade, mas tal resposta desabonaria os cronistas sérios. Uma resposta mais plausível é que defende pontos de vista indefensáveis de um ponto de vista racional, mas politicamente sua visão distorcida da realidade muito favorece o veículo de comunicação onde publica seus disparates, Veja do grupo Abril, que por sua vez, tem grande interesse em difundir os desarrazoados defendidos pelos tucanos paulistas. Isso, tendo em vista que o Governo de São Paulo é o maior freguês das revistas Abril. Aí sim, podemos entender melhor as fantasias do senhor Gustavo Ioschpe.

domingo, 3 de junho de 2012

Verdades e equívocos históricos

Observatório da Imprensa 05/06/2012

Em artigo que aponta algumas ressalvas sobre a Comissão da Verdade, O Estado de S. Paulo – 28/05/2012, o renomado jurista Ives Gandra Martins logo de início faz a seguinte formulação:

"Depois de muita expectativa - e com grande exposição na mídia -, foi constituída comissão para "resgatar a verdade histórica" de um período de 42 anos da vida política nacional, objetivando, fundamentalmente, detectar os casos de tortura na luta pelo poder. A História é contada por historiadores, que têm postura imparcial ao examinar os fatos que a conformaram, visto serem cientistas dedicados à análise do passado. Os que ambicionam o poder fazem a História, mas, por dela participarem, não têm a imparcialidade necessária para a reproduzir."

O que incomoda é o fato do jurista acreditar que historiadores têm o pressuposto da imparcialidade no fazer de sua profissão. E Prossegue com o seu primeiro reparo:

"A Comissão da Verdade não conta, em sua composição, com nenhum historiador capaz de apurar, com rigor científico, a verdade histórica da tortura no Brasil, de 1946 a 1988. O primeiro reparo, portanto, que faço à sua constituição é o de que "não historiadores" foram encarregados de contar a História daquele período."

Alguns historiadores poderiam pulular de suas sepulturas, caso estivessem mortos, com a utilização do termo “verdade histórica”. Principalmente aqueles que seguem as correntes relativistas não acreditam que o produto do trabalho dos historiadores possa ser chamado de verdade. Consideram que existem vários pontos de vista sobre cada fato e o ponto de vista do historiador nessa reflexão poderia ser chamado, sim, de versão, verdade nunca. Nas últimas décadas, o termo verdade, nas ciências humanas, foi entrincheirado e nessa guerra declarada contra a “verdade absoluta” a busca pela verdade deixou de fazer sentido.

Ao final de seu texto, Gandra Martins volta à verdade histórica: “Estou convencido de que tudo o que ocorreu no passado será, no futuro, contado com imparcialidade, não pela comissão, mas por historiadores, que saberão conformar para a posteridade a verdade histórica de uma época.” Já utilizamos em outro texto um panorama traçado pelo historiador José Carlos Reis a respeito da crise da verdade, que Ives Gandra Martins parece não compactuar, que parece vir a calhar também nesse momento:

"Penso que se pode distinguir pelo menos três posições em relação ao `relativismo pós-estruturalista´, à crise da verdade, após a euforia cientificista estruturalista. [:]

A primeira é articulada por Hayden White, para quem o relativismo é libertador. Ele não vê oposição entre história e ficção. O historiador produz construções poéticas e se ilude quanto à realidade e verdade de seus relatos. Mesmo que se irritem com o apagamento da fronteira entre o real e o ficcional, os historiadores não podem evitar de pensar no seguinte: a explicação histórica não é dada pelo conteúdo factual. A história adquire sentido da mesma forma que o poeta e o romancista dão sentido ao real. E, para White, isso é bom. A história não é diminuída quando aproximada da literatura, que é também um saber superior. Afinal, só o conhecimento científico é válido? Se o mundo é tal como você o narra, tal como lhe parece, ninguém mais se deixará dominar por discursos dogmáticos e `verdadeiros´, que só são ideologias perigosas. O passado pode ser mudado, a história não precisa ser um fardo insuportável. [;]

Do lado contrário, há a posição de Carlo Ginzburg, o `combatente pela história´ mais radical contra o ponto de vista histórico pós-moderno. Rejeita vigorosamente a `máquina de guerra cética´. Para ele, a metodologia da história, hoje, está distante do trabalho concreto dos historiadores, pois nenhum historiador quer produzir apenas `retórica´. Ginzburg vê graves consequências epistemológicas, éticas e políticas na negação da distinção entre narrativas históricas e imaginárias. O discurso histórico relativista é visto como empático com os `vencedores de 1989´, protegendo o Ocidente da sua culpa e tornando-o irresponsável por sua história de conquistas, genocídios, escravidões, holocaustos e terrorismos. [; e]

Por fim, Paul Ricoeur aponta um outro caminho para a historiografia. Sua abordagem não toma o texto em si mesmo, não aceita a suspensão que faz do mundo, mas o restitui ao diálogo. O texto deixa de ser fechado em si mesmo, porque permite que o leitor se aproprie dele e o transforme, para aplicá-lo ao seu mundo, interpretando a si mesmo, compreendendo-se melhor, pela mediação dos textos."

O relativismo exagerado que anula a possibilidade de os historiadores chegarem a uma verdade histórica parece estar em voga, mas existem outras alternativas teóricas contrárias e bastante plausíveis. Nesse sentido concordamos com Gandra Martins quando utiliza o termo verdade histórica, mas não quando agrega à formulação o termo isenção. O historiador, como qualquer outro profissional, não pode ser isento. Seu fazer não permite isso, suas experiências e seus preconceitos vão permear seu trabalho. É de sua subjetividade que surgirão as perguntas a serem respondidas sobre o passado e o futuro.

Já no que diz respeito ao 1º “reparo” que o autor faz, a respeito da Comissão da Verdade não ter historiadores em sua composição, isso não é de se estranhar. Parece natural que os profissionais da história, que não têm a habilidade necessária para apresentar amplamente seus trabalhos e cuja uma das principais funções é “não esquecer o passado”, sejam preteridos.