quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Por um amplo boicote à profissão docente

Leitore(a)s responsáveis por jovens que estão no momento de escolher suas profissões, venho fazer-lhes um apelo, desnecessário aos mais sensatos, pois é algo feito por esses sem êxito: não permita de forma alguma que seu filho(a) seja um(a) professor(a). Os motivos são logo sabidos ou imagináveis, mas além de evitar que sua prole tenha um emprego com parcos rendimentos e sua integridade física e mental possa ser constantemente ameaçada, o boicote à malfada profissão docente pode contribuir para que essa venha a se tornar decente.

Não estranhe ainda o fato de um professor aconselhar tal boicote, nessa corporação nós o praticamos, principalmente os que lecionam em escolas públicas. O fazemos primeiramente pagando altas mensalidades em escolas particulares para nossos filhos, pois conhecemos nosso ambiente de trabalho e caso nossos herdeiros o frequentassem teriam chances menores de ascender à outra profissão mais respeitável. Afinal, como já havia notado o sociólogo Pierre Bourdieu, famílias de "classe média" investem mais pesado na educação dos filhos.

É necessário ressaltar que as escolas particulares não são necessariamente boas, apenas tem a possibilidade de excluir do convívio dos filhos de seus clientes jovens marginais e mesmo outros que não se adequem ao modelo ultrapassado de escola que temos em nossa sociedade. Basta lembrar os resultados da avaliação do IDEB 2011 do ensino médio, enquanto a grande mídia fez um estardalhaço a respeito da baixa média das escolas públicas e particulares juntas, 3,7, numa escala de 0 a 10, se esqueceu de perceber que o 5,7 das escolas particulares também é uma nota baixa.

O mesmo vale para as festejadas escolas militares que conseguiram as melhores notas do país, 6,7, seu segredo não repousa em disciplina e hierarquia. O motivo das altas notas dessas escolas é a possibilidade de escolher seu público, já que seus alunos são essencialmente filhos de oficiais e os demais enfrentam rígida seleção para ingresso. Mantendo de fora a parcela da população escolar que não é afeita à chatice da escola, essas escolas garantem suas notas regulares. Claro que selecionar alunos não é permitido a outras instituições.

É justo que todas as parcelas da sociedade tenham acesso à educação, afinal uma instância socializadora como a escola pública não pode selecionar alunos. Um país não pode permitir que seus cidadão mirins sejam privados de ensino, ainda que crianças de onze ou doze anos tenham que conviver com traficantes e homicidas. Tal convívio é garantido país afora por promotores da infância e da juventude, na crença de que a educação pode salvar os que já estão visivelmente perdidos para drogas e outros males.

Resta saber o que a falta de professores, que já está em curso, pode ajudar a melhorar a situação da profissão. Os professores são de fato necessários para a sociedade? Se respondermos que sim, os salários e as condições de trabalho vão ter que melhorar. Um elemento que pode ajudar a pressionar nossos políticos é a falta generalizada de professores, se esses escassearem o suficiente aqueles terão se fazer algo, muito embora alguns já estejam demonstrando o contrário. Os melhores alunos dessa geração já não querem essa profissão e é preciso que muitos mais não queiram para que melhore.

As licenciaturas à distância que se espalharam pelo país como resposta do governo federal ao abandono da profissão constituem uma medida meramente paliativa visando garantir um número alto de professores com um investimento mínimo em sua formação inicial e isso é sintomático do pequeno esforço feito para solucionar o problema. A maioria dos estudantes que optam por licenciaturas, presenciais ou virtuais, o fazem por acharem que não tem chance ingressar em cursos mais disputados, o ensino à distância não vai resolver esse problema. Mesmo que no ano de 2010 houvesse 1,7 milhão de vagas nessa modalidade, ainda faltam professores. Fica o apelo do boicote generalizado à profissão docente.

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