Diário dos Campos 31/08/2010
O Brasil é um país de maioria católica, segundo dados de 2003 são 73,79% da população. Acredito que pesquisas mais recentes, caso realizadas, não tenham alterado esse quadro. Mesmo levando em consideração que em nosso país o catolicismo nunca foi propriamente muito “romano”, é um número que impressiona. Alguns estudiosos afirmam que em nossos dias as pessoas estão cada vez mais precisando de crer em algo e mesmo enfrentando uma crise moral graças aos escândalos dos padres pedófilos, evidenciados timidamente pela imprensa, a Igreja é ator de grande importância para suprir essa demanda.
Voltando no tempo, o que nem sempre é bom hábito, a Igreja Católica surgiu como um grupo dissidente do judaísmo que acreditava ser o Deus dos hebreus um certo Jesus Cristo. No século IV conseguiu se tornar a religião oficial do Império Romano, com o imperador Teodósio, depois de os cristãos terem sido perseguidos por cerca de três séculos. Foi a única instituição com alguma organização no contexto da implosão do Império Romano do Ocidente e surgimento da Idade Média européia formando a cristandade. Entre os séculos XI e XIII conseguiu direcionar a força guerreira dos europeus, com as Cruzadas, para um inimigo externo, os muçulmanos que dominavam Jerusalém.
A despeito da máxima cristã “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”, A Igreja Católica se tornou uma instituição com grande poder político, sobretudo no período medieval e moderno, criando dogmas, tradições que garantiram seu prevalecimento. Primeiro sobre as mulheres, que por essas tradições, nunca vão ter lugar de destaque nos ritos e nos altos cargos da instituição. Também nos séculos XII e XIII muitas mulheres foram condenadas à fogueira, pela inquisição o braço secular da Igreja, acusadas e bruxaria. Prevalecia a imagem de Eva a responsável pela queda do homem com o pecado original.
No contexto das navegações do século XVI um dos motivos de os europeus terem realizado a exploração do continente americano foi a possibilidade de encontrar almas que não conheciam a palavra cristã e convertê-las. O catolicismo eurocêntrico aliviava a consciência dos colonizadores aventureiros e empreendedores que escravizavam indígenas e africanos, os últimos trazidos forçosamente para a América. A teologia católica justificando o sofrimento em terra desses pobres diabos, que assim ganhariam sua alma no paraíso, ajudou a construir toda a nossa história colonial e parte de sua fase independente.
No Brasil a Igreja aproveitou muito bem o período em que esteve ligada diretamente ao poder político. Graças a esses laços conseguiu construir impérios no setor da educação e também no que diz respeito à concessão de emissoras de Rádio e Televisão. Curiosamente as emissoras católicas veiculam programações sofríveis. A influência da Igreja pode ser medida quando candidatos políticos saem pela tangente na hora de tomar um posicionamento que vá de encontro aos seus dogmas, a exemplo de união homossexual ou legalização do aborto. A instituição condena até mesmo a utilização de métodos contraceptivos, o que a rigor seus fiéis não levam a sério e a demografia agradece.
Recentemente me deparei com a cobrança de um fiel a respeito de a Igreja contribuir para a busca de um equilíbrio entre a Terra e o homem. Seus argumentos eram referentes à necessidade de a instituição colaborar para a equação de alguns problemas como consumo desenfreado e o controle de natalidade. Embora estejamos em uma fase histórica de baixas taxas demográficas os níveis de consumo ameaçam a preservação do sistema planetário. Podemos dizer que o domínio do homem, ao menos nas suas entranhas, a Igreja já assegurou desde seus primórdios. O fiel se referia ao homem enquanto humanidade. Abordagem bem católica que nesses tempos politicamente corretos não cai bem. Mas fica o desafio à instituição, ainda que essa seja mais preocupada com um paraíso que com vida terrena.
http://www.diariodoscampos.com.br/diariodoscampos/upload/arquivos/pagina_02_2_20381.pdf
A Igreja já esteve bem melhor de quadros. Saudade dos irmãos Boff, Casaldáliga, D. Paulo Arns. Precisa de uns 250 Fábios de Melo mais uns 200 Marcelos Rossis para dar um deles.
ResponderExcluirHoje, ser progressista na Igreja é criticar o governo Lula. Pena.