Um dos livros que tem tido grande influência sobre os historiadores brasileiros, nos últimos anos, é O Queijo e os Vermes do historiador italiano Carlo Ginsburg. Em 2006 A Cia das Letras relançou a obra, com o selo Cia de Bolso, em formato poquet com texto integral. Publicado em diversas línguas, o livro conta a história de um moleiro da região do Friuli na Itália do século XVI. Ao pesquisar sobre uma seita de hereges, em fontes inquisitoriais, seu autor se deparou com um processo longo e detalhado sobre Domênico Scandela que também era chamado de Menochio. Este, mesmo declarando saber vários ofícios, se apresentava como moleiro e, de acordo com seus bens, talvez pudesse se comparar ao que, nos dias atuais, chamamos de classe média em comparação a seus vizinhos. Sabia ler e escrevia com alguma dificuldade, mas o principal diferencial de Menochio é que falava demais.
Falava demais e sobre coisas que certamente lhe trariam problemas com o Tribunal da Inquisição, como de fato lhe aconteceu com a denuncia de seu próprio pároco. Sua fala advinha da leitura de algumas obras circundantes na época. Livros que foram levantados por Ginsburg e tiveram seu conteúdo cotejado com as falas transcritas dos autos do processo possibilitando o teste e refutação de algumas hipóteses pelo historiador. Assim, as idéias de Menochio não o inseriam no ramo herege dos anabatistas e nem estavam ligadas às idéias da Reforma, mesmo que o contexto reformista e o advento da imprensa, na medida em que este personagem histórico era um leitor, tenham tido um papel importante na difusão de suas idéias. A hipótese defendida por Ginsburg, como mais plausível é que Menochio desse vasão, em suas idéias, a um radicalismo camponês mais antigo que a Reforma que aflorara naquele contexto mais distante da tolerância medieval que era o século XVI. Tal hipótese permite trabalhar com o conceito de cultura de modo a não enxergar esta apenas nos setores dominantes e cultos da sociedade.
As idéias de Menochio revelam uma independência e autonomia de pensamento que vão desde a questionar dogmas da Igreja, como a confissão, até a criar uma cosmogonia própria, onde toda a matéria era uma massa de queijo e os anjos seus vermes. Assim, sua visão da criação mantém uma relação com o seu mundo material, com a sua profissão. Seu modo de pensar não derivava de suas leituras, aliás, tais leituras eram passadas por uma espécie de filtro em que o leitor aproveitava o que melhor lhe aprazia para confirmar suas idéias. Era uma forma de ler na qual o que era lido ficava em segundo plano, podia ter seu sentido modificado ou reelaborado de outra maneira. Na maioria das vezes que Menochio foi inquirido se havia aprendido tais idéias com alguém respondeu que as idéias saíam de sua cabeça sutil e mesmo que tenha discutido ou emprestado livros e ou conversado com alguém fora o seu radicalismo que moldara suas idéias. Idéias que lhe fizeram passar por dois anos na prisão e quando conseguiu indulto para retornar à sua comunidade teve que ser marcado com uma veste que trazia um estigma de herege.
Retornou à sua aldeia e parece ter voltado a seu estilo de vida normal, sendo eleito novamente como administrador de sua paróquia e arrendando outro moinho com seu filho. Entretanto chegaram novas denúncias sobre o mesmo ao tribunal do santo ofício e o moleiro não conseguiu se manter calado na medida em que a abnegação de suas idéias não foi sincera. Sabedor de que por causa destas mesmas possivelmente morreria e triste por ter prejudicado seus familiares, os quais a esposa e o filho predileto já haviam morrido, foi novamente interrogado e considerado como relapso e reincidente. Seu caso ficou conhecido a ponto de o responsável por seu julgamento e punição ser pressionado por superiores, em nome do santo padre, para que fosse dada uma sentença condizente com a gravidade das formulações do moleiro para os dogmas da Igreja. Seu destino provavelmente foi selado pela Inquisição.
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