quinta-feira, 17 de novembro de 2011

15 de Novembro

Essa data passou batida para mim mais uma vez. Isso deve ser sintomático da pouca importância dada ao evento, mas ele merece algumas reflexões. Afirmo, sem piadas, que a proclamação da República foi uma espécie de golpe militar. Não teve caráter popular, pois a população simples dormiu em um regime e acordou em outro. Assim, o novo regime foi de início um governo de preservação da ordem, que atravessava as fronteiras do século XIX para o XX, deixando para tráz apenas a monarquia e seguindo como uma República de coronéis.

Existe quem acredita na República de 1889 como o início de um processo que tende a beneficiar o povo, que por seu turno tem pouca participação nas revoltas do século XIX. As rebeliões de escravos que precederam a Revolta dos Malês na Bahia tinham um forte componente religioso. Na de 1814 seus líderes queriam até criar um Estado islâmico. Uma revolta de cunho iminentemente popular foi a Cabanagem. Os especialistas nesse assunto afirmam que não havendo participação das elites a revolta não teria tido a mesma força. Na Guerra dos Farrapos as elites lideraram o processo. Os gaúchos queriam apenas fundar uma nova república e manter a velha ordem. Essas e outras revoltas não tiveram êxito.

O país ficou imerso num clima insidioso, após a partida de Pedro I, no período regêncial. Situação que culminou com a antecipação da maioridade de Pedro II. Desde a partida do pai, movido a rompantes e tido como promíscuo, o filho passou a ser adorado pelo povo, carioca, e depois de sua coroação, em 1840, governou até 1889. Um período de calmaria, se excetuarmos a Guerra do Paraguai. É a partir desse evento que o Exército começa a manifestar sua insatisfação. Aliás, após o golpe que implementou a República, o Marechal Deodoro escreveu a D. Pedro II dizendo que tal estado de coisas se devia a o Conde d´Eu. Parece que as atitudes do genro do imperador para com o Exército, nos campos de batalha da Guerra do Paraguai, foram consideradas ultrajantes.

No que se refere a Pedro II, a historiografia mais recente faz boa imagem do monarca. Alguns depoimentos seus, em idade madura, dizem que preferia não ter se tornado imperador tão jovem. Existem relatos que seus ministros nas reuniões temiam muito sua sabatina, pois costumava estar mais a par da situaçao das pastas que seus responsáveis. O monarca também era contrário à escravidão, instituição que vai desaparecer devido à repressão ao tráfico pelos ingleses, à entrada no país das ideias de liberdade, ao temor de uma revolta generalizada por parte dos negros escravizados, tendo como cereja do bolo, a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel.

Aliás, a canetada da regente, tida como carola, afastou de vez a possibilidade de continuidade da monarquia. Novos ventos sopravam desde a extinção do tráfico depois de 1850, o que vai liberar o capital investido nessa empresa para outros setores. Na década de 1860, o epicentro econômico do país se desloca dos canaviais nordestinos para as lavouras de café do sudeste e os fazendeiros de café faziam grande pressão política para beneficiar seu setor. A Igreja por sua vez, entrou num atrito com o Império o que ajudou a desgastar as relações entre ambos. Em 1874, foram presos dois bisbos que haviam interditado irmandades com participantes maçons. Foram condenados a quatro anos de prisão. A condenação perdeu o efeito depois de negociações com o Vaticano.

Um evento pode mostrar a reação da população simples diante da nova República. Na revolta de Canudos, Antônio conselheiro acirrava os ânimos de seus seguidores para que não aceitassem um governo que não estivesse ligado à Igreja. Talvez o próprio Demônio, caso exista, não tivesse reprimido os sertanejos Belo Monte como fez o Exército Republicano. Esse foi o tratamento dado a quem não assistiu a Proclamação da República como “bestializado”, para desespero dos que vêm alguma significativa presença popular no regime de 1889.





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