domingo, 26 de setembro de 2010

CRÔNICAS DA PATERNIDADE I: A ACEITAÇÃO

Revista Virtual Partes 01/11/2010



Aconteceu em pleno recesso de julho (uma das poucas benesses do magistério). A patroa começou a enjoar. Deu pra sacar de início. Não da pra pensar outra coisa quando sua mulher sai correndo em direção ao banheiro, se ajoelha diante do vaso e põe boca afora fluidos estranhos pela manhã. Agora foi. Já temia de longa data. Uma microscópica criatura, assemelhada a um girino contendo toda a minha carga genética deve ter chegado a seu alvo. Mais uma vez a natureza triunfou, graças ao instinto libidinoso que não tem outro motivo real senão a manutenção da espécie.

Como disse acima, notícia já era esperada, pois relações sexuais sem nenhum tipo de prevenção não pode resultar em outra situação. É batata. Até quando não está tudo bem, por vezes, a natureza parece achar seu caminho. Lembro o caso de um amigo haver confidenciado que seu médico lhe dera nota 4 no quesito fertilidade e seu filho está bonito e brincalhão. Por sorte puxou à mãe, haja visto por vezes a figura mal avaliada receber apelidos do tipo Bob Esponja.

Após a confirmação primeira sensação é de pânico. Até porque os amigos com filhos pequenos fazem um jogo de terror. O Bob Esponja mesmo não se fez de rogado: “Aproveitem agora, descansem, vão ao cinema porque depois que o bebê nascer isso acaba.” Um vizinho adotou uma menina linda ainda bebê. Também mandou seu desabafo: “Cara eu vou falar a verdade, criança pequena é difícil, nem namorar você tem tempo”. Depois de ouvir essa francamente pensei em boicotar os planos maternais da patroa. Outro depoimento desanimador foi o do meu amigo Sidão: “Cara eu vou falar a verdade, passar uma noite em claro com 20 anos é uma coisa, mas depois dos 35 é difícil”.

As mamães, amigas da patroa, também não colaboram: “ai amiga é difícil. Não sei o que seria sem a ajuda da minha mãe”. Ou então: “Ela dorme às 11, acorda às duas e ás cinco e cada mamada dura mais ou menos uma hora”. Outra que é bem marcante: “Ai depois dos filhos é só preocupação, você nunca fica tranquila e depois que crescem é ainda pior”. E os gastos: “você gasta tanto com escolinha, tanto com fralda, e mais sei lá o quê e veja bem é um dinheiro que a gente podia aproveitar e viajar, mas por causa dela não dá”. Confesso que nessa última ocasião quase tomei o partido do bebê, mas coisas desse tipo deixam o casal aspirante bem animado.

Mas apesar de todas as supostas dificuldades, parece que ter filhos ainda é imposto aos casais como uma obrigação, um dever. Curiosamente não se trata apenas das cobranças da família, tipo “quero um sobrinho” ou coisa do gênero. É como se todo mundo que tivesse filhos dissesse: “vocês dois têm que ter um filho”! Claro que de forma mais velada: “Há quanto tempo vocês estão juntos”? “Cinco anos”. “Nossa, então já ta na hora de arranjar um filhinho”! Também no estilo tradicional: “e aí quando é que vai chegar o bebezinho”? Fico a me perguntar se estas cobranças não passam de estratégia da natureza na sua empreitada instintiva para manter a espécie que, aliás, já é bastante numerosa, ou então um modo de as pessoas se afirmarem perante as outras pela procriação. Provavelmente deve ser as duas coisas juntas.

Interessante notar que algumas pessoas parecem ter uma espécie necessidade de se reproduzir. Outro dia um amigo conterrâneo que atende pelo não muito original apelido de Negão perguntou: “que você acha de no ano que vem eu ter um filho”? “Tá maluco? Você ganha quinhentão, abandonou a faculdade e ainda quer ter filho”? “Que você tem contra ter filho”? Perguntou já se exaltando. “Nada [respondi] e também não tenho nada contra não ter, aliás, o que é muito mais racional no seu caso”. “Eu não vou abrir não da minha felicidade porque ganho pouco.” “Cara [retruquei] eu não preciso ter filhos pra ser feliz [agora espero ser mais feliz tendo um]”. Assim morreu a conversa.

Ainda não sei se as pessoas têm filhos por necessidades instintivas e ou para se afirmar perante aos outros. Minha única certeza é que vem mais um por ai.

Nenhum comentário:

Postar um comentário