Observatório da Imprensa 23/11/2010 (O dilema de um ensino público de qualidade)
Muito tem se falado das falhas da última versão do Enem. Falhas em um exame tão abrangente acabam por nublar outros fatos, nesse caso, sintomas da patológica política educacional que vem sendo realizada em nosso país. Dois textos da Gazeta do Povo (19/11/2010 “Imagem em prova escandaliza escolas” e 18/11/2010 “O resgate do prestígio do professor” de Jacir J. Venturi) chamam a atenção em especial.
O autor do segundo texto é professor e diretor de escola. Assim, temos uma imagem de professores construída por um membro da corporação. Logo no início utiliza o termo resgate. È de se supor então que para resgatar a dignidade dos professores há de se arcar com um preço. O ônus sugerido pelo professor não deixa de mencionar a valorização salarial dos docentes, mas parece dar mais importância à valorização do mérito, de professores que conseguirem fazer seus alunos atingirem boas notas em avaliações institucionais duvidosas, ao gosto da cartilha psdebista.
O professor também relata uma experiência de convívio que teve com professores japoneses. Aqui no Brasil muito se observa o sucesso que outros países conseguiram no setor educacional, mas nada de seus problemas. Embora a educação japonesa deva estar em melhor situação que a nossa, é bom lembrar que só recentemente tornaram o Ensino Médio obrigatório como podemos ver em “Gratuitos, mas desiguais” Le Monde Diplomatique Brasil 10/2010. No que diz respeito ao salário dos professores nipônicos, o próprio professor afirmou que estes se queixavam de despender metade de seus vencimentos com o aluguel na periferia de Tóquio.
Já o primeiro texto chama a atenção para uma imagem politicamente incorreta (http://alexandre-profissoperigo.blogspot.com/2010/11/imagem-em-prova-escandaliza-escolas.html) incluída numa avaliação da Educação Infantil realizada pela Secretaria de Educação de Curitiba. Embora a impropriedade da imagem chame mais a atenção, não deixa de ser apenas um sintoma da política do governo tucano que realiza tais avaliações semestralmente. Política nada diferente da implementada no Estado de São Paulo e chega dar calafrios lembrar que o governador eleito do Paraná é outro tucano.
Os problemas elencados por Ravitch aparecem em outra versão nos depoimentos da reportagem de 19/11 da Gazeta do Povo. Avaliações demasiadas: “o professor só pensa na prova, em se sair bem, em tirar uma boa nota”. O representante da secretaria de educação curitibana nega que o objetivo das avaliações seja ranquear as escolas, mas o objetivo é claro como água. Nos EUA o objetivo das avaliações era verificar as escolas que não atingiam as metas e mudar drasticamente a gestão dessas, chegando a demitir professores, caso não conseguissem fazer seus alunos atingirem o desempenho desejado. Atualmente as escolas que perderam autonomia não estão alcançando resultados melhores que antes e se preocupam exclusivamente em preparar os alunos para as avaliações.
O discurso da valorização dos professores exclusivamente por mérito aferido por avaliações generalizadas está se impregnando na educação brasileira. Não apenas entre dirigentes políticos, mas também entre os próprios professores. A inspiração são os países onde a educação dá certo, Coréia do Sul e Islândia, mas o exemplo dos países onde esse modelo fracassou é ignorado. A educação estadunidense e a brasileira têm em comum o fato de estarem no dilema de como proporcionar um ensino público de qualidade. Lá esse modelo já aponta uma série de mazelas. Se aqui continuarmos a nos enveredar por esse caminho os resultados podem ser piores.

Parabéns pelo Blog José.
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