sexta-feira, 3 de junho de 2011

Crônicas da Paternidade II: a expectativa

Travessias 12/2011



Depois da aceitação vem a expectativa. O simples ato de saber que um pequeno ser será dependente de você é estarrecedor. As primeiras coisas que vêm à cabeça paterna: acabaram-se as noites, essas vão vão vir regadas a choro, mamadas e mulher mal humorada; acabaram-se as saídas, cerveja depois do trabalho, sinuca na quinta feira; acabou-se o fim de semana, cinema no sábado e longas cochiladas depois do almoço. Sim, pensar isso é de fato aterrador. Entretanto, há de se conformar. Na corrida em que milhões de espermatozóides disputaram para chegar ao óvulo, um foi o vencedor. Praticamente não dá sinal de vida por uns 90 dias depois da corrida fatídica, é o período da aceitação. Porém, quando o pequeno parasita começa a dar mostras de sua presença outras ideias começam a povoar a mente paterna.

Uma dessas ideias mais recorrentes é: com quem o bebê vai se parecer? Esse detalhe é importantíssimo. Está escrito em algum lugar, muito pouco respeitado, que a maternidade é certa, mas a paternidade é presuntiva. Ora bolas, se no casal o marido pode ser o pai biológico, isso também abre a possibilidade de não o ser. Também soube por uma fonte não muito confiável, e não me dei ao trabalho de confirmar, que trinta por cento dos pais criam filhos de outros homens sem o saber. As piadas então são fantásticas: “não se preocupe, pai é quem cria”, ou então: “você está feliz, sim, nossa imagine o pai então”. É por isso que um filho que se parece com o pai é algo maravilhoso. Logo aparacem aqueles comentários que encheriam qualquer homem de orgulho: “Nossa esse é seu com certeza!”. E quantas vezes o felizardo não repetiria para si mesmo: É a cara do papai! A semelhança física é desejada sobretudo para os filhos homens.

No caso das filhas meninas, a melhor expectativa é que se pareça com a mãe. Certamente muitas mulheres já perderam negócios no mercado matrimonial por serem idênticas aos pais ou aos irmãos. Sobretudo se um cônjuge em potencial já conhece os familiares. Sim isso pode ser problemático. Um amigo de infância, EdMarte, contou que toda vez que ia beijar a namorada tinha a sensação de estar com o sogro, só que com cabelos longos, brincos e maquiagem. Resultado: fim do namoro. O ideal para as meninas é ser a cara da mamãe, porém com alguma característica de alguma tia paterna ou outro parente que o valha. Ainda tem detalhezinho de suma importância: e se for um casal interracial?

Como homens brancos procriam com mulheres negras ou mulheres negras procriam com homens brancos, ou seja lá qual for a mistura, isso pode aumentar o grau de dúvida sobre paternidade. Isso costuma ser chamado de mistura de raças e se percebe tão bem em nosso país que é um verdadeiro laboratório de cruzamento de povos ou seja lá qual termo preferir. Nesse campo, as piadas, politicamente incorretas, também são ótimas e justo por condenáveis não cumpre mencionar. Talvez seja mais interessante relatar um drama conhecido, cujo efeito trágico, pode ilustrar melhor a situação.

É o caso do amigo EtMarte, que preservo a identidade verdadeira por ser assunto dos mais delicados. Seu filho mais velho carrega visíveis traços negróides, para usar a linguagem da medicina legal. O pai, negro carapinha, teria ficado deveras contente se não faltasse no menino um detalhezinho bobo que é a cor, mais adequada nesse caso, a sua. Seu filho então é um “negro/branco”. Coisa de dar nó na cabeça até de pessoa esclarecida, o que talvez não seja o caso. A filha da meio quase que salva a lavoura, um pouquinho mais chegada de melanina. Mas a filha caçula levou a colheita por terra com a pele alvinha e um cabelão loiro encaracolado. É de se compadecer pelo amigo, que há tempos da mostras de precisar de um bom psicanalista.

O fato é que, para satisfazer todos os preconceitos, os filhos devem se parecer com os pais, minimamente, a ponto de não levantar suspeitas sobre retidão monogâmica da mãe. As filhas devem se parecer com as mães, mas ter alguns traços paternos, para não dar azo às mesmas dúvidas. O formato dos dedos ou o lóbulo da orelha, talvez textura do cabelo, já quebram um galho. O mesmo vale para os casais interraciais, com o aditivo da melanina é evidente. Pra todo mundo ficar contente, tem que ser a cara do papai.

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