domingo, 3 de abril de 2011

As mães de Chico Xavier, entre jornalistas e a verdade


Observatório da Imprensa 05/04/2011

No último primeiro de abril entrou em cartaz mais um filme sobre Chico Xavier. Dessa vez com o foco principal sobre mães que perderam prematuramente seus filhos. O filme é ocasionado pelas comemorações do centenário do famoso médium brasileiro. No bojo dessas comemorações também estão “Chico Xavier – o filme” de Daniel Filho, assistido por 3,4 milhões de espectadores e também exibido na rede globo como minissérie, e “Nosso lar” de Wagner de Assis. No que tange às novelas, a rede Globo reprisou em 2010 “Alma Gêmea” e produziu “Escrito nas Estrelas”. Um personagem de “As mães de Chico Xavier” nos chamou atenção em especial.



Na trama, o jornalista Karl, Caio Blat, é designado por seu chefe Mário, Herson Capri, para realizar uma reportagem sobre o afamado médium Chico Xavier. Ambos sabem de Chico apenas o que ouviram falar de seus feitos, porém são céticos. Mário informa que o homem lá de cima (o dono da emissora?) está interessado em Chico e Karl pergunta algo do tipo: que resultado tem que ter essa pauta? (ou poderíamos dizer como Chico deve ser visto). Mário responde a verdade. Uma resposta que causa surpresa no jovem jornalista: é tão difícil buscar a verdade nessa profissão! Karl encontra abertura por parte de Chico, mesmo com as experiências negativas que esse parece ter tido.


Em “Chico Xavier - o filme”, dois jornalistas também se aproximam de Chico, Ângelo Antônio, com o intuito de escrever uma história. Alegam serem estrangeiros e conseguem ludibriar o médium, com sucesso. Esse é alertado por seu guia que atribui à vaidade de Chico que tenha acreditado em histórias da carochinha. Ainda assim, a imagem do médium mineiro não é construída como a de um larápio ou charlatão (intenção inicial dos jornalistas) pairando um clima de dúvida e indefinição na forma como foi escrita a reportagem. Episódios dessa natureza podem ter vacinado o médium e aqueles que estavam em seu entorno a respeito de jornalistas.


No caso de Karl, apesar do seu ceticismo, é um jornalista com uma postura diferente da dos mencionados acima. Tinha uma impressão inicial, mas não se aferrou a essa como convicção para mostrar a história que queria. Sondou as pessoas locais, pediu permissão ao próprio Chico para filmar suas sessões e também pediu uma entrevista que a princípio não é concedida. Recebe a sugestão do médium e a permissão de seu chefe para colher o depoimento das mães que recebem as cartas nas sessões. O resultado é que suas reportagens vão ao ar.


No filme “As mães de Chico Xavier”, a verdade que Karl, considera ser algo com o que um jornalista raramente trabalha, transmite é a de um médium com um trabalho importante e comovente. Um trabalho que comove inclusive seu chefe. Em “Chico Xavier - o filme”, a verdade a que os jornalistas queriam chegar é a do charlatão que enganava a população simples, porém não chegaram a essa, pois esse filme também é generoso com a imagem de Chico. Mas uma questão paira no ar: o que é essa verdade com a qual um jornalista raramente trabalha, de acordo com o personagem interpretado por Caio Blat?


Já mencionamos em outra ocasião (http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=621JDB009 ) uma entrevista com o historiador José Carlos Reis em que esse afirma que verdade é um conceito que se encontra em crise. Para alguns essa pode estar muito próxima de algo como uma ficção e para outros essa de fato pode ser atingida. O que é verdade para Karl, não o é para os jornalistas de Chico Xavier – o filme. Vivemos num momento em que a verdade é relativizada.


Ambos os filmes que comentamos tratam de um personagem que de fato existiu. O cinema trata da ficção e também trata da realidade, mesmo quando sua intenção não é fazer ficção está repleto de elementos fictícios. Pode reproduzir a realidade e na medida em que a reproduz também a reconstrói. Eis a importância de notarmos que, em “As mães de Chico Xavier”, os jornalistas raramente tem a oportunidade de trabalhar com a verdade, ou ao menos com o que está mais próximo dela.

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