Diário dos Campos 24/06/2010
A obra do escritor espanhol Miguel de
Cervantes Saavedra, Dom Quixote de La
Mancha, é um dos principais clássicos da literatura
universal. No enredo, um nobre de meia
idade enlouquece pela leitura excessiva de romances
de cavalaria a ponto de se convencer
que é um cavaleiro andante. A partir de então
inicia uma viagem em busca de aventuras
com auxílio de um escudeiro, o vizinho, Sancho
Pança. Uma das passagens que mais chama
atenção na obra é a que Dom Quixote confunde
moinhos de vento com gigantes, aos quais oferece
combate. A imagem do “Cavaleiro da Triste
Figura” se impregnou em nosso imaginário e arriscamos
a hipótese de que entre os profissionais
da educação reina uma espécie de “complexo
de Dom Quixote”.
Há alguns anos num curso de formação para
professores o palestrante, se referindo a um colega
que se encontrava no público, diz: “Esse é
mais um Dom Quixote da vida que vive dando
cabeçada em muro e soco em pontas de faca!”
A imagem do cavaleiro andante foi utilizada
então para representar um colega de profissão
comprometido com a mesma. Alguém que, apesar
dos percalços enfrentados na carreira, continua
engajado e acreditando na educação. O
Dom Quixote aparece então, conforme o dono
da fala, como uma espécie de tipo ideal de educador,
o comprometido, engajado e que se sacrifica.
A visão do professor Dom Quixote ainda é
corrente e assume outras facetas.
No filme norte americano Freedom Writers,
EUA, 2007, dirigido por Richard LaGravenese, no
Brasil traduzido como Escritores da Liberdade,
temos o exemplo da professora Erin Gruwell,
protagonizada por Hilary Swank. No enredo,
baseado em uma história real, a professora tem
uma turma problemática à qual propõe a feitura
de diários onde vão escrever suas histórias.
Para conseguir conquistar a turma e fazer com
que todos se formem a professora se dedica exclusivamente
aos alunos, deixando de lado o
casamento e arranjando trabalhos temporários
para com o dinheiro proporcionar atividades
extras para seus pupilos.
Entre os dias 21, 22 e 23/06/2010 os professores
do Ensino Fundamental e Médio de
Ponta Grossa estão envolvidos em um curso
de formação promovido pela SEED (Secretaria
de Estado da Educação). São ofertadas aos docentes
oficinas de várias temáticas ministradas
por próprios colegas da rede que se predispuseram
a oferecê-las. Numa das oficinas foi utilizado
um show de slides, embasado num texto
do professor Gabriel Perissé intitulado “professores
apaixonados”, ou algo parecido. Assim,
a reação dos professores ao salário achatado
da categoria, às péssimas condições de trabalho
e aos demais problemas do contexto educacional
é ser um professor ou professora apaixonado
(a).
O Dom Quixote de Cervantes encanta também
pelo idealismo romântico que desperta. É
aquele que acredita em algo que não é. Apesar
destes aspectos, a identificação de profissionais
da educação com o este personagem, a nosso
ver, não é saudável. Basta lembrar que ele enlouqueceu
pelo excesso de leitura. Acredita no
que vê, mas não se dá conta que a própria mente
lhe engana. Ao seu redor sabem que está louco,
mas não lhe dizem e quando o fazem este
não acredita. Da mesma forma que o “Cavaleiro
da Triste Figura”, nós professores, não nos damos
conta da realidade. Quando esta bate à porta,
e o faz frequentemente, encampamos o discurso
do professor que se sacrifica, pois a profissão
é assim. Ou ainda, incorporamos o discurso
do professor apaixonado, uma profissão tão
dura se realiza apenas com muita paixão.
Não negamos que paixão e sacrifício fazem
parte de todas as profissões. Entretanto, a partir
do momento em que estes elementos predominam
na imagem que a sociedade constrói, e no
caso a que os próprios professores fazem de si,
é preciso refletir sobre a identidade profissional.
Assim, ao contrário do personagem de Cervantes,
nós professores transformamos os gigantes que
nos oprimem em meros moinhos de vento.
http://www.diariodoscampos.com.br/diariodoscampos/upload/arquivos/pagina_02_2_19201.pdf
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