Revista Médio Paraíba 10/04/2010
A charge da edição de 09/04/10 do JM News, que faz menção às últimas chuvas no Rio de Janeiro, remete a outro fenômeno que nos chama a atenção de longa data. Em tese, desde a Proclamação da República, o Brasil é um país laico. A constituição assegura liberdade de crença e respeito a todas as manifestações religiosas, mas esta questão deve ser observada mais de perto. Ao que parece a religião oficial dos colonizadores de nosso país, o catolicismo, se mostra ainda profundamente arraigada em nossa esfera pública.
Na fase colonial de nossa história, além do catolicismo outras religiões também conquistaram seu espaço. Eram tempos em que a Igreja tinha perdido na Europa sua supremacia como única religião cristã e além de judeus a colônia portuguesa também recebeu protestantes em Pernambuco e no Rio de Janeiro. Os povos indígenas desde muito antes estabelecidos tinham suas próprias religiões. Os africanos importados forçosamente por conta do tráfico de escravos também trouxeram suas tradições religiosas que aqui se imiscuíram com a religião oficial, o catolicismo, sincretizando divindades e originando novas formas de crer.
No período imperial, quando viajava pelas províncias, D. Pedro II observava como ponto negativo a ausência de doutrinação católica às crianças. Tal situação tem alguma alteração em 1889 quando o Brasil se torna uma República e a religião se desatrela do Estado. O caráter da transição de regimes políticos, sem envolvimento popular, talvez tenha contribuído para a resistência da maioria da população em aceitar o novo status legal da antiga religião no novo regime. Podemos lembrar o caso da Revolta de Canudos, quando sertanejos baianos com a liderança de um líder messiânico, Antônio Conselheiro, que pregava contra o casamento civil e a cobrança de impostos da recém implantada “república do diabo”.
Interessante que em muitas repartições públicas podem ser encontrados elementos de tradição católica cristã, como Bíblias e crucifixos. Objetos que também podem ser encontrados em escolas públicas onde, não raro, ainda se mantém o hábito de rezar antes do início das aulas. Em tais situações, quem vá de encontro a tais práticas podem ser facilmente acusados de não respeitar a religião alheia, como se a realização de uma oração cristã, em ambientes públicos não fosse um desrespeito a quem pratica religiões de outra matriz cultural, como o candomblé, e paga seus impostos.
Em agosto de 2009 o Ministério Público Federal em São Paulo pediu à justiça que obrigue a União a retirar todos os locais de atendimento ao público em órgãos federais do Estado. A alegação do Ministério Público é que a ostentação de símbolos religiosos se trata de desrespeito à liberdade de crença dos cidadãos, pois quando um Estado laico permite a presença de símbolos de determinada religião, discrimina todas as demais e até quem não tem religião. Uma argumentação bastante plausível e mais um capítulo de uma discussão que se estende desde a Proclamação da República.
O interessante é que podemos acompanhar os ecos da religiosidade de nosso, suposto, Estado laico em fenômenos de ordem diversa. O monumento, retratado na charge, que remete à cidade do Rio de Janeiro é o cristo redentor. A criatividade do chargista é mais um indício bem humorado de nossa religiosidade. Por ocasião do excesso de chuvas, o Cristo liga para outro personagem bíblico, Noé do antigo testamento, que havia construído uma arca para salvar cada espécie de animal do dilúvio. Ocorre que, na narrativa bíblica, “as comportas do céu se abriram e toda a terra se encheu de água” porque todos os homens eram pecadores (claro que este mito não serve para explicar dilúvio do Rio).
O Rio de Janeiro é de longe a cidade mais famosa do país, atrai turistas nacionais e do exterior e seu símbolo mais famoso é uma estátua da figura que inspirou o cristianismo. O Estado laico que temos não passa de um ensaio. A religiosidade está impregnada até na esfera dos serviços públicos. Neste caso, seria melhor que as repartições, escolas e hospitais também contassem com símbolos de outras religiões. No mínimo seria divertido encontrar um preto velho e o Alcorão ao lado de um crucifixo.
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