Jornal da Manhã 06/02/2009
Quando o vírus de uma doença se adentra em um organismo, esse logo procura repelir o desconhecido para que esse não possa causar mal. O corpo humano conta com um sistema imunológico que tem essa função. Quando o vírus já é conhecido, o sistema imunológico tem muito mais facilidade para repeli-lo. Por esse motivo, desde a idade mais tenra, tomamos vacinas, que nada mais são que doses ínfimas e enfraquecidas de vírus que podem nos prejudicar. Já quando o sistema imunológico não conhece o vírus tem muito mais dificuldade para refreá-lo e dependendo da doença o organismo pode até morrer até morrer. Ocorre que a realidade que envolve fenômenos sociais, econômicos, e culturais pode ser mais complicada que a esfera biológica.
Na Segunda Guerra Mundial, a Alemanha nazista se encarregou de dar cabo de seis milhões de judeus. Tal situação, ao fim da Guerra, conferia mais simpatia ao sionismo perante a comunidade internacional e ajudaria a legitimar a migração de judeus, do leste europeu, para a Palestina que já vinha acontecendo desde o século XIX. Terminada a Segunda Guerra, potências como Inglaterra e França já não tinham a força de antes e o mundo se dividiu em dois blocos de países.
Em 1948, quando expirou o mandato que os ingleses tinham recebido da antiga Liga das Nações, antecessora da ONU, na região da Palestina os israelenses, através de seu primeiro ministro, Ben Gurion, se declararam um Estado Nacional Soberano. Tal ação fez com que uma liga de países árabes tentasse invadir Israel, que mesmo tendo menos soldados e armamentos conseguiu se reequipar, com auxílio dos EUA e da antiga URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), se fazendo vitorioso nesse conflito passando a controlar 77% do território palestino, quando antes dominavam apenas 7,23%. Cada país árabe agiu por conta própria sem a mínima coordenação. A partir desse momento histórico Israel atraiu centenas de milhares de judeus de todo o mundo e estabeleceu relações sólidas com as principais potências mundiais, Estados Unidos e União Soviética. Em alguns países do mundo árabe o ano de 1948 passou a ser lembrado como Al Naqba, 'a desgraça'. A vitória de 1948 serviu como a primeira antemão da crosta de arrogância que passou envolver Israel alimentando seu sentimento de superioridade com relação aos países árabes. Esses, por sua vez se sentiram humilhados e buscariam dentro em breve sua revanche. Nesse contexto tem bastante importância a figura de Gamal Abdel Nasser.
No ano de 1952 o chamado golpe dos Oficiais Livres tirou do trono, do Egito, o rei Faruk e se iniciou um regime em que a figura central era Gamal Abdel Nasser. Esse tinha origem camponesa, era um fellah, camponês do Nilo, e realizou reformas sociais importantes em seu país. O mais importante foi que Nasser lançou uma proposta de pan-arabismo, a idéia do mundo árabe como uma unidade política, que entusiasmou seus vizinhos árabes e tinha como principal objetivo a vingança contra Israel. Uma das medidas de Nasser foi a nacionalização do canal de Suez o que descontentou a França e a Inglaterra que, por sua vez, receberam, de Ben Gurion, a proposta de realizar em conjunto um ataque preventivo contra o Egito. Em 29 de outubro de 1956 pára-quedistas israelenses desembarcavam no deserto do Sinai. Dois dias depois aviões, britânicos e franceses, atacaram bases aéreas egípcias. Os dois governos europeus exigiram que as tropas do Egito e de Israel se retirassem a 16 km do canal. Com ameaças de sanções econômicas dos EUA e da URSS, a França e a Inglaterra recuaram dessa exigência. Israel ocupou todo o Sinai, fez 12 mil prisioneiros e capturou 150 tanques. O Oriente Médio saiu da colonização anglo-francesa e mergulhou no conflito URSS X EUA, a Guerra Fria. Essa foi a Guerra de Suez.
Sob a ameaça da Guerra Fria os regimes árabes e africanos se dividiram em dois grupos. Um desses, era liderado por países como Arábia Saudita e Kuwait, se interessavam por produzir o máximo possível de petróleo com o objetivo de manter os preços baixos e também, boas relações com EUA, URSS, França e Inglaterra. Já o outro, era composto de regimes que foram chamados de pan-arabistas cuja principal liderança era o egípcio Nasser que apregoava a existência de uma única nação árabe. O que os dois grupos mantinham em comum era a aversão a Israel. Em 1964, Egito e Síria financiaram a criação da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Quase que simultaneamente surge outra organização criada por estudantes palestinos que não dependia dos governos árabes. Era a Al Assifa, braço armado da Al Fatah, e liderada pelo engenheiro Yasser Arafat. Por essa época, Israel reforçava sua aliança com as principais potências ocidentais.
Seria fácil dizer que a emigração de judeus, do leste europeu, que o movimento sionista idealizou e implementou se assemelha a uma doença que tenta se apossar de um organismo e que as guerras entre árabes e israelenses também podem ser comparadas à tentativas do sistema imunológico, árabe, repelir um vírus desconhecido. Tal analogia só poderia ter como resultado uma explicação simplista. Mas a tentação é grande.
http://www.jmnews.com.br/index.php?setor=NOTICIAS&nid=272024
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