domingo, 25 de julho de 2010

O Cristo chora

Revista Médio Paraíba 16/04/2010

O Cristo chora na capa de Veja de 14/04/2010. Não apenas porque "as comportas do céu se abriram e toda a terra se encheu de água", mas talvez pelo fato de a água não ter levado todo mal e iniquidade da terra. “O pensador do milênio” passado, de certa feita, escreveu que a história se repete, os fatos acontecem primeiro na forma de tragédia para ganhar nova versão na forma de comédia. Neste caso, aconteceu primeiro como mito e ganha sucessivas versões em como tragédia.

Na versão mítica, uma narrativa que já está impregnada no imaginário ocidental, Deus resolveu extirpar a vida, porque toda a terra estava cheia de maldade. Ainda assim, para salvar a criação, incumbiu ao único justo que construísse uma grande arca e nesta mesma comportasse um exemplar de cada animal, bem como seus filhos e suas famílias. Pois 40 dias e 40 noites, muito tempo, de chuvas viria inundar a terra e a vida contida na arca daria origem a um novo começo.

Vez por outra este mito se repete em forma de tragédia. No país inteiro foram registradas enchentes significativas com destaque para o Rio de Janeiro em 1967, e Santa Catarina em 2008. Fenômenos de tal ordem são comuns no meio natural, embora nosso estilo de vida cause grande influência na natureza. No âmbito social tais fenômenos não causariam grandes danos se as regiões não fossem povoadas desordenadamente, mas o são. Na exegese da tragédia, recentes chuvas no Rio de Janeiro, a imprensa busca os responsáveis e também soluções para o problema.

Em Veja 14/04/2010: “(...) em nenhum outro lugar do país o populismo foi tão decisivo para que as favelas tomassem as dimensões de hoje. Nos anos 80, o governador Leonel Brizola chegou a incentivar abertamente a ocupação dos morros. Ali, fincava seus currais eleitorais, proibindo até, pasme-se, a entrada da polícia, um aval para o banditismo.(...) Nada menos que treze dos 51 integrantes da Câmara de Vereadores e 21 dos setenta deputados mantêm centros sociais em favelas. Em troca de votos, eles prestam todo gênero de assistência aos moradores - de distribuição de dentaduras a atendimento médico.”

Em Isto É, 12/04/2010, a tônica é como remover a população das áreas condenadas: “(...) apenas a palavra “remoção” provoca arrepios em muita gente. Mas, para preservar vidas, é necessário superar um tabu que, ao que tudo indica, teria começado a partir das ações do governo de Carlos Lacerda, no início dos anos 1960, que retirou, na marra, os habitantes das favelas da zona sul e mandou-os para bem longe: a Cidade de Deus e Bangu”.

No mito, o criador decide salvar uma amostra das criaturas e destina-as a repovoar o mundo. Na versão trágica, o Estado afirma sofrer resistência das famílias para tirá-las das zonas de perigo. No mito, o criador não exita em eliminar a humanidade corrompida e ensejar um novo começo. Na tragédia, a fração mais vulnerável, os pobres habitantes dos morros, pagaram pelas omissões de gerações de dirigentes políticos. No mito, as águas baixaram e houve um novo recomeço para a humanidade e as outras espécies. Nesta última versão, trágica, não é difícil prever seus próximos desdobramentos.

Governos das esferas federal, estadual e municipal vão se mobilizar para remediar os problemas mais urgentes com medidas paliativas. Mas a observação do passado mostra algumas lições da dinâmica nacional. Depois que o sofrimento, das vítimas, deixar de ser matéria interessante para a imprensa, depois, que as medidas emergenciais forem tomadas, soluções estruturais provavelmente serão refreadas, até porque a miséria de alguns garante a fartura de poucos.

Assim, o Cristo, de fato, tem motivos para chorar, pois na tragédia seu pai, o Deus dos hebreus, não pode extirpar a iniquidade. Na tragédia, aqueles que podem e devem fazer algo são os herdeiros dos, e os próprios, pecadores que não foram nem vão ser levados pelas águas ou soterrados por escombros. O esforço agora, será para tornar o Rio de Janeiro palatável para a Copa do Mundo e as Olimpíadas de 2012.

http://www.medioparaiba.com.br/revista/noticia.php?l=2f08ad1527b2c53d9f2a75faef40b736

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