É muito célebre uma passagem em um documento
do nosso período colonial na qual os portugueses
sem braços escravos andariam como que
caranguejos arranhando a beira da praia. A imagem
do crustáceo que anda de lado parece ter
se fixado em nossas instituições. Tomamos por
exemplo as alterações da última versão do PNDH
(Plano Nacional de Direitos Humanos) que procuraram
atender alguns setores da sociedade, entre
estes a Igreja.
Em O Globo, 14/05/2010, na matéria Igreja
ainda não está satisfeita com as mudanças no artigo
sobre aborto: “O secretário-geral da CNBB,
dom Dimas Lara, comemorou em parte as mudanças.
Ele considerou ótima a manutenção de símbolos
da Igreja em locais públicos, mas disse desconfiar
das mudanças na parte que trata do aborto.”
Também na Folha de S. Paulo, 14/05/2010,
CNBB pede voto em político que rejeita o aborto:
“O arcebispo de Mariana (MG), dom Geraldo
Lyrio Rocha, presidente da CNBB, disse ontem,
ao ser questionado sobre o aborto, que os católicos
não devem votar em um candidato que “defende
posições que são opostas às defendidas na
Igreja Católica.”
Sobre a questão dos símbolos religiosos
em locais públicos já havíamos observado, em
Religiosidade no Brasil: perpassando o público e o
privado que no Brasil o Estado não é laico. Nada
mais normal seria a retirada de qualquer símbolo
religioso em toda e qualquer repartição pública,
mas a nova versão do PNLD abre mão deste princípio.
Arriscamos a hipótese de que a prática da
manutenção de objetos religiosos, seja em escolas
hospitais ou qualquer órgão público, se configura
numa espécie de resistência simbólica à forma
como foi constituída a República, laica, com a
ausência de participação popular.
Na medida em que no período do Império
Estado e Igreja estavam interligados manter
Bíblias ou crucifixos nas repartições públicas pode
ser considerado como prática de resistência ao regime
republicano. Ao que parece o governo do
presidente Lula abriu mão desta questão que mesmo
sendo uma forma de resistência não deixa de
ser também uma violência simbólica. Isso considerando
que pessoas que praticam religiões de tradição
não cristã também pagam seus impostos e
de acordo com essa lógica também tem direito a
ter seus símbolos religiosos representados em ambientes
públicos.
No que diz respeito à descriminalização do
aborto, o documento pareceu manter uma posição
ambígua: “O aborto não foi excluído de maneira
incisiva. Quando diz que é problema de saúde pública,
o que isso quer dizer? (…) se for apenas outra
forma de justificar o aborto, nada muda - disse
dom Dimas Lara.” nesta questão a Igreja continua
com o argumento da defesa da vida em abundância.
Além de ser mais um indicativo da natureza
fossilizada da Igreja, este argumento também
constitui um grandessíssimo cinismo.
Nada mais plausível a instituição se preocupar
em resgatar sua dignidade frente a crise que
atravessa, referente aos padres pedófilos, antes de
continuar a empunhar a suposta bandeira de vida
em abundância defendendo a continuidade da criminalização
do aborto. Isso tendo em vista que alguns
de seus funcionários tem se mostrado verdadeiros
violadores dos direitos humanos. Parece
que a instituição não pensa assim e da uma grande
contribuição para que o país continue considerando
legalmente que aborto é crime na medida
em que a CNBB recomenda a seus fiéis a não votar
em candidatos políticos que apoiam a legalização
do aborto.
No início do século XVII os portugueses resolveram
seu problema, de falta de mão de obra para
trabalhar, com a tragédia da escravidão negra
para que os fidalgos portugueses não continuassem
arranhando a praia como caranguejos. Nosso
dilema agora é saber como o Brasil vai se livrar de
tradições e mentalidades obscurantistas, um passo
importante para definir o que consideramos
Direitos Humanos e direitos particulares.
http://www.dcmais.com.br/diariodoscampos/upload/arquivos/pagina_02_2_18581.pdf
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