Revista Médio Paraíba 02/03/2010
Um verbete laudatório, intitulado “Jorge Amado”, nos descreve a ocasião em que conheceu o escritor baiano na festa em comemoração ao aniversário de 70 anos deste mesmo em Salvador. Vargas Llosa se mostra impressionado por Jorge Amado ser uma figura tão popular entre o povo e também pela forma que tratava pelo nome os verdureiros e vendedores de peixe.
No que se refere à sua importância como escritor aflora no texto de Llosa a imagem do escritor militante de uma geração que escrevia para mudar o mundo, um autor consciente do momento histórico em que vivia e das mudanças que podia ajudar a fomentar com sua escrita. Vejamos:
“Naqueles anos – os da Guerra Fria no mundo e das ditaduras militares da América Latina, não devemos esquecer -, sua figura pública e sua obra literária se identificavam com a idéia do escritor militante, que utiliza sua pena como arma para denunciar as injustiças sociais, as tiranias e a exploração, e para arrebanhar adeptos ao Socialismo”.
É digna de nota a metáfora que associa a “pena” com uma “arma” que reforça a visão de Vargas Llosa acerca da obra de Jorge Amado como uma escrita militante. Outra questão que podemos constatar é que o comentário generoso acerca do colega, brasileiro e baiano, de ofício também contemple elementos que possam ser localizados em sua própria produção. A novela, sua primeira, que rendeu ao escritor peruano reconhecimento internacional foi “La ciudad y los perros”, onde faz justamente uma crítica aos militares peruanos. Temos então o comentário de quem também vivenciou um contexto de ditadura em seu país e tentou fazer algo utilizando das armas que dispunha, neste caso a “pena”.
Já no período em que o socialismo real deixou de ser um exemplo, para Vargas Llosa, “O que salvou Jorge Amado da armadilha na qual caíram muitos escritores latino-americanos (...) foi que em seus romances políticos um elemento intuitivo, instintivo e vital sempre derrotava o ideológico e balançava os esquemas racionais.” Também chama a atenção do escritor peruano sobre a obra literária de Jorge Amado a percepção de um elemento saudável e positivo nos personagens. Vejamos:
“(...) em seus romances (...) todas as desventuras do mundo não são suficientes para quebrar a vontade de sobrevivência, a alegria de viver, o engenho risonho para sempre dar a volta por cima que animam seus personagens. [em contraposição aos aspectos sombrios encontrados na obras de outros grandes criadores de nosso tempo, menciona ainda a] (...) cota de bondade, de alegria, plenitude e grandeza espiritual que a existência também contém e que, nos seus romances (...) termina sempre ganhando as batalhas em quase todos os destinos individuais”.
Na perspectiva de encarar a literatura como uma construção ficcional onde o autor insere em sua obra elementos do seu entorno e da sua memória, representando a realidade que tem ou a que gostaria de ter, não podemos deixar de considerar que as características elencadas, por Vargas Llosa, da obra de Jorge Amado, bondade, plenitude, vontade de viver, são oriundas desta forma do povo brasileiro, ou neste caso mais específico da Bahia, numa perspectiva regionalista. Isto na medida em que a matéria prima da obra literária do escritor baiano é também embasada em sua memória e observação da sua realidade, como bem podemos ver no livro infanto-juvenil “O Menino Grapiúna” onde Jorge Amado faz uma narrativa das memórias de sua infância. Narrativa esta que se encontra repleta de temas cenários e personagens que vão figurar também no conjunto de sua obra de ficção.
Jorge Amado não é o único escritor brasileiro que chamou a atenção de Vargas Llosa no seu dicionário. Entre os autores que chamam a atenção do escritor peruano encontra-se Euclídes da Cunha, com “Os Sertões”, o qual afirma ter utilizado todas as ferramentas de sua época na tentativa de um romance total. Também encontramos espaço dedicado a Rubem Fonseca com seu romance, “A Grande Arte”, com narrativa precisa e seu personagem emblemático, o detetive “Mandrake”. Mas é a obra do escritor baiano que suscita mais representações sobre o caráter do povo brasileiro em um observador de fora, mesmo que de um país vizinho.
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