domingo, 25 de julho de 2010

Filhos da Guerra

Jornal da Manhã 11/01/2009



Uma história absolutamente incomum e peculiar, a do judeu alemão Solomon Perel, foi contada no filme 'Filhos da Guerra', uma co-produção alemã e francesa, dirigido pela polonesa Agnieszka Holland em 1990. No enredo, a família Perel estava refugiada em Loda na Polônia, mas quando essa cidade foi invadida por tropas da Alemanha Nazista o jovem Solomon fugiu com seu irmão, do qual depois se perdeu, se refugiando num orfanato bolchevique. Depois de quebrado o pacto Hitler-Stalin e do bombardeio da cidade de Grodno, União Soviética, onde se localizava o orfanato, Perel caiu na mão de tropas nazistas, mas longe de ser descoberto como judeu se tornou uma espécie de herói de guerra. Invejado por seus colegas, admirado por seu superior e posteriormente amado por uma linda moça alemã, Solomon viveu todo o tipo de situações inusitadas para ocultar sua origem judaica.

Ao final do filme é marcante o depoimento de Perel que, depois da Segunda Guerra, se mudou com sua família para Israel e afirmou que após o nascimento do seu primeiro filho não hesitou em circuncidá-lo. Esse drama isolado é apenas uma das inúmeras narrativas que tratam de um dos episódios mais trágicos da humanidade, o holocausto. Um momento histórico em que judeus, ciganos e homossexuais eram considerados seres que não mereciam estar no mundo. A craniologia e a frenologia, ciências preconceituosas em voga no fim do século XIX e início do XX, atestavam que a raça pura, germânica era superior e destinada à grandeza, portanto indivíduos ou povos mestiços eram responsabilizados por tudo de ruim que pudesse acontecer. O resultado disso é que a, ressentida, Alemanha, liderada por Adolf Hitler, implementou um programa que envolveu discriminação, segregação e extermínio de mais de seis milhões de judeus.

O holocausto talvez tenha dado mais legitimidade, perante a comunidade internacional, ao sionismo, um movimento que reivindicava a autodeterminação do povo judeu em um território, mas um território, que não era habitado por uma maioria judaica. A Palestina, uma região que desde o ano 350 d.C. era habitada por povos árabes. Ainda que esses povos também tivessem origem judaica, o movimento sionista tinha por base uma migração com expectativas, língua e cultura de judeus do leste europeu. Uma das conseqüências da Primeira Guerra Mundial foi que o território da Palestina saiu do domínio turco-otomano passando para o controle da Inglaterra. Os ingleses se mostraram favoráveis à causa sionista considerando que, depois da Declaração de Balfor, a migração de judeus para o território palestino teve um incremento significativo nas duas décadas anteriores a 1945. Após essa data a migração se acentuou e em 1947, quando terminou o domínio inglês sobre a região, o convívio entre árabes e judeus já havia extrapolado para o nível da violência mútua o que levou a ONU a propor a divisão do território em dois Estados, um judeu e outro árabe.




Essa divisão proposta pela organização das Nações Unidas agradou aos judeus sionistas, mas não aos árabes, aos quais caberiam 45% do território em litígio, em benefício dos judeus com 55%. Em 1948 Israel se declara um Estado independente, mesmo ano em que cessa o domínio britânico da Palestina. Seis países árabes vizinhos não reconheceram o novo Estado o que originou a Primeira Guerra árabe-israelense. Seguindo esse conflito vieram a Guerra de Suez (1956), a Guerra dos Seis Dias (1967) e a Guerra do Yom Kippur (1973). Mesmo atualmente, o Egito e a Jordânia reconhecendo a autoridade de Israel como Estado Nacional o mesmo não aconteceu com os outros países envolvidos nas guerras, como o Líbano, Síria, Iraque e Arábia Saudita. A indignação e a luta dos palestinos se dá no momento atual através dos grupos como o Hesbollah, sediado no Líbano, e o Hamas, um partido mais radical e o Fatah, considerado mais moderado.

O nosso ano de 2009 ja se iniciou com uma intensificação da violência entre sionistas e palestinos. Os israelenses alegam que seu território foi alvejado por foguetes lançados por militantes do Hamas. Armamentos que podem ter sido conseguidos através de uma rede túneis na fronteira palestina com o Egito. Uma das reivindicações do governo israelense para um cessar fogo, negociado pela França e pelo Egito, é a garantia que tal rede de túneis não possa ser reativada, o que poderia rearmar o Hamas. A ofensiva israelense nao tem polpado nem mesmo civis e entre as vítimas estão inclusive crianças. Números divulgados pelas autoridades palestinas dizem que entre as 600 vítimas da faixa de Gaza, 205 são crianças. Até mesmo uma escola da ONU foi bombardeada sob a alegação de que nela haviam militantes.

No filme mencionado no início desse texto, vemos um adolescente judeu que passou pelas mais diversas situações para escapar da catástrofe que foi o holocausto judeu. Mas a criação do Estado de Israel nos mostra que na História não existe o bem e o mal ou mocinhos e bandidos. O povo que foi vítima de uma tragédia indizível se tornou algoz e quem sabe futuramente possamos assistir, com pesar, a um filme ou ler um livro que narre as atrocidades dos últimos bombardeios israelenses na faixa de Gaza e o drama dos filhos dessa guerra.

http://www.jmnews.com.br/index.php?setor=NOTICIAS&nid=252857

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