Revista Médio Paraíba 21/01/2010
Júnior tirou o pênis para fora e começou a urinar copiosamente. O ambiente era esfumaçado e fugidio não enxergava mais de um metro adiante do nariz. Não via nenhum problema em acenar para figura distinta, que se postara à sua frente numa espécie de reverência enquanto urinava, sinalizando com a mão direita que se levantasse na medida em que a esquerda redirecionava o jato de urina a não acertar este interlocutor. Cuidou para não pisar na possa que já se formava na areia e se posicionou no sentido contrário ao que começava a correr a enxurrada para não molhar os pés descalçados. Percebeu que uma multidão se direcionava para um salão onde a mesma figura, um idoso grisalho com uma túnica e agora sentado num trono, aguardava sua presença e como que num piscar de olhos se viu no tal salão. Ninguém parecia se importar que ele estivesse desprovido de qualquer peça de roupa, mas não se sentiu à vontade e se retirou da aglomeração, senão envergonhado um tanto quanto incomodado, talvez pelo ar que passava solto nas suas partes. Sua saída causou desespero nos presentes que lhe conclamavam que ficasse e perguntavam com alvoroço o motivo de estar se ausentando, o que lhe fazia se afastar o mais rápido possível querendo chegar não sabia onde. Depois disso acordou.
Levantou rapidamente da cama em direção ao banheiro com a bexiga explodindo. Ainda tivera que levantar a tampa do vaso, o que o deixara deveras irritado, para liberar ao centro da bacia o forte jato que fazia um barulho estrepitante, o bastante para atravessar as finas paredes que separam seu AP aos demais, situação que em outra ocasião lhe preocuparia por incomodar os vizinhos. Neste momento queria apenas desfrutar lentamente da sensação prazerosa de evacuar o liquido que sai através da uretra com mais pressão que uma mangueira de caminhão pipa. Quando pensa que sua bexiga jamais se esvaziara a pressão da urina diminui até findar. Sacode o pênis três vezes de forma meticulosa e pressiona o prepúcio sobre o corpo do órgão, amolengado, do pé até á glande de forma a expulsar qualquer resíduo liquido que apareceria retardatariamente caso tal ritual fosse ignorado. As idéias começam lentamente a tomar liberdade e a primeira delas é maldizer sua mulher, Madalena que havia acordado antes para trabalhar, dona da perniciosa mania de manter o vazo com tampa cerrada alegando não se tratar de um banheiro de rodoviária. A segunda é voltar para a cama desfrutar do momento preguiçoso que apenas uma manhã proporciona justamente no momento de acordar. Depois de várias esticaduras, verticais e horizontais, se deu conta que permanecer na cama quando não se precisa levantar cedo não é tão fascinante, ainda assim se sentiu feliz por estar afastado do emprego graças a recomendações expressas de seu médico. A terceira idéia desponta ao se levantar: que diabo de sonho foi esse?
Júnior sempre fizera grande esforço para se lembrar de seus sonhos e talvez por isso a maioria destes permanecesse no terreno do esquecimento. Num primeiro momento pensou ter matado a charada, queria ir ao banheiro e a mente alertava o corpo, como ocorrera tantas vezes na infância. Nestas, porém, a sonolência da idade macia não deixava o corpo se levantar e não foram raras as vezes que deixara uma mancha amarelada nos lençóis e ouvira a ralhação de Miriam, sua mãe, asseverando que dormiria com o colchão cheirando a mijo para aprender a acordar em tempo. Entretanto, sentia uma intuição muito profunda que este sonho, nebuloso e desprovido de sentido, tinha um significado maior a ser revelado ou descoberto. Não numa manhã, pois nesse período sempre sentira não contar com suas faculdades mais ágeis nem com a presença de espírito necessária para se debruçar sobre aquela estranheza incômoda. Abriu a janela e se pôs a observar o sol raiando alto na mesma teimosia de todos os dias, só que nesse se sentia diferente como se o sonho, de ainda há pouco, fosse presságio de muitos tormentos na sua vida que neste momento estava calma.
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