terça-feira, 27 de julho de 2010

Sobre a musicalidade do povo brasileiro

Revista Médio Paraíba 19/10/2009

É de longa data uma crônica de João Ubaldo Ribeiro sobre a musicalidade do povo brasileiro que trata dos exageros e de o quanto, em determinadas ocasiões, pode ser incômodo este elemento de nossa cultura. Constato que o escritor tem razão quando, em sala de aula, utilizo algumas fontes, ou documentos, audiovisuais que despertam nas crianças e adolescentes esta musicalidade intrínseca. Uma destas fontes é um desenho de animação da Disney, que parece nunca ter sido exibido aqui no Brasil em TV aberta estrelado por nosso conhecido personagem Pato Donald.

No enredo, o pato, que vive num lugar fictício chamado Nazilândia, é um operário que tem de trabalhar 48 horas por dia numa linha de montagem de armas que lembra o trecho inicial do “Tempos Modernos” de charles Chaplin e vez por outra tem de saudar, com um “Heil Hitler”, uma imagem do fuher alemão. O tom de sátira é incrementado por uma banda marcial que toca uma marcha cuja letra ridiculariza o governante alemão e desperta a musicalidade dos jovens brasileiros de 14 anos que começam usar pés e mãos acompanhando o ritmo da banda. Uma imagem que vem de encontro à fantasia que alguns jovens têm de ser bateristas de bandas de Rock, fazendo baquetas de seus lápis e canetas da mesma forma que fazem de pratos suas carteiras e cadernos e vociferando palavras indistinguíveis com um som gutural.

Realizado no contexto da Segunda Guerra o vídeo constrói uma suposta Nazilândia onde os trabalhadores são mal alimentados, super explorados e humilhados. Parece ser bem o estilo norte americano, com sua super máquina de produção cultural, de representar outras sociedades criando imagens cheias de preconceitos e estereótipos (longe de mim, neste caso, defender a Alemanha nazista dos tentáculos perniciosos do império estadunidense). Um exemplo mais recente é um episódio da série os Simpsons, de Matt Groenning, que também não foi exibido aqui em TV aberta, em que a famigerada família faz uma viagem a um Brasil que fala espanhol e se vê animais selvagens andando pelas ruas, entre outras coisas. O episódio rendeu até um conflito diplomático, uma vez que o então Presidente da República exigiu uma retratação por parte dos responsáveis pelo episódio e foi chamado por tabela de celebridade em decadência.

Agora você, suposto leitor, pode questionar este professor se não é um tanto de chatice se incomodar com um detalhe bobo, a musicalidade, em momentos inapropriados, de seus alunos. Sim é verdade, é coisa de gente ranheta, mas não da pra não ser chato quando um dos principais ossos do ofício docente é enfrentar várias salas, às vezes com mais de 40 crianças cada. Contraditoriamente à práxis repressiva do contexto educacional, que devemos levar a cabo, nossos melhores objetos culturais e educacionais despertam a musicalidade nata das crianças e adolescentes batucadores que no futuro poderão ter algo semelhante aos atuais carros pretos, rebaixados, aro 18 e com potencial sonoro pra animar uma festa.

Despertar a musicalidade também acontece com a bela comédia do cinema italiano ambientada na Itália medieval que conta a história de Brancaleone, um cavaleiro trapalhão, inspirado no Dom Quixote de Miguel de Cervantes, que viaja com seus seguidores passando por todo o tipo de situação inusitada. “O Incrível Exército de Brancaleone”, dirigido por Mário Moniceli em 1965, conta com uma longa trilha sonora, animada, que se repete em alguns momentos do filme, mas é o que basta para despertar a musicalidade quase que adormecida do coração de cada aluno que passa a acompanhar o ritmo da marcha batendo as mãos nas carteiras e os pés no chão.

Por fim me vejo obrigado a dar o braço a torcer. Se a musicalidade, que já foi considerada pelo escritor Mário Vargas Llosa como uma das características mais criativas do povo brasileiro, tem tanta força a ponto de ser o que mais chama a atenção das crianças, em importantes bens culturais, é melhor pensar em maneiras criativas de usar este fator para o bem da Escola, como tanta gente já o faz.

http://www.medioparaiba.com.br/revista/materia.php?l=dca9ed580722ec4d73a44bf6444ce628

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