terça-feira, 27 de julho de 2010

Professores no cinema nacional

Revista Médio Paraíba 16/11/2009



Central do Brasil, de Walter Salles, é um filme de grande importância. Pertence ao chamado cinema da retomada que floresceu posteriormente ao período do Governo Collor quando foram extintos órgãos como a Embrafilme. No enredo temos o encontro de Dora (Fernanda Montenegro) que atua escrevendo cartas, na Estação Central do Brasil, para pessoas analfabetas e Josué (Vinicius de Oliveira) menino que é criado por Ana sua mãe (Soia Lira) longe do pai e que ansia por conhecer este mesmo. A trama leva os destinos de Dora e Josué se unirem na procura deste pai o que se torna motivo para uma viagem a um Brasil do interior. O pai não é encontrado e sim irmãos paternos que acolhem Josué. Acerca do filme muito se debateu, entretanto um elemento que consideramos merecer atenção passou quase que despercebido.

Pensemos em Dora, aquela que escreve cartas para pessoas que não dominam a escrita, que transcreve para o papel o que ouve de seus clientes e se compromete a postar as cartas e não o faz. A mesma Dora que relê as cartas com sua amiga Irene (Marília Pêra) e decide rasgar a quase todas e as que não levam este destino são engavetadas. Essa mesma senhora já aposentada e que utiliza este ofício para complementar seu orçamento doméstico. Este mesmo personagem, uma mulher solteira, já em idade avançada não tendo constituído família que carrega um amargor demonstrado nas feições sem pintura e na maneira, por vezes ríspida, de tratar os próprios fregueses é uma professora. Em Central do Brasil vemos esta professora primária aposentada cuja descrição não é tão distante da construída por Mary Del Priore, para o fim do Século XIX, no seu livro “Matar para não morrer”.

Vejamos:

As moças que se considerassem feias e retraídas eram "chamadas" para o magistério. Ser professora constituía trabalho aceitável para as mulheres sós. Um único turno, salário modesto e exigência de bons costumes. Aquelas a quem a maternidade física fora vedada cumpriam suas funções como "mães espirituais". A professora solteirona era de poucos sorrisos. Sua afetividade ficava escondida. Severidade e secura, óculos, coque, roupas escuras, pêlos no rosto (...) "O pior, para uma mulher, é não casar. O celibato feminino é uma fábrica ativíssima de monstros. A mulher é um ser profundamente afetivo. Nasceu para amar - seja a um homem, a um santo ou a um gato. (...) e infernizam a alma terna das crianças (devia ser proibida a existência de professoras solteiras!). Como não casaram, descarregam nos petizes todo o fel acumulado em longos anos de renúncia.




Em momentos diferentes da história de nosso país, intervalados por mais ou menos um século, vemos imagens muito parecidas de professoras: mulheres amargas, que não foram requisitadas no mercado matrimonial e desatribuídas de qualquer encanto físico. Claro que neste último século o perfil da profissão mudou muito. Não se pode dizer que as descrições assemelhadas, acima, representem com os mesmos aspectos a maioria do professorado, pois a profissão também se masculinizou, embora pesquisas indiquem que o número de mulheres tenha crescido mais. Também não podemos dizer que a maioria destas são solteiras, ou sem prole, mas esta professora de Central do Brasil traz uma imagem emblemática.

Uma imagem que podemos facilmente construir de professores atualmente é de pessoas mal remuneradas, num ambiente de trabalho que pode beirar à periculosidade não raramente e que oferece um elevado nível de estresse. O excesso de trabalho tem que ser outro componente da descrição, um trabalho que tem que ser terminado em casa roubando tempo de lazer nos fins de semana. Pessoas que têm por vezes os nervos à flor da pele e que os anos de carreira se encarregam de tornar endurecidas e com vários problemas de saúde específicos. A profissão não é exclusivamente feminina nem de excluídos do mercado matrimonial, mas quando o cineasta pensou em um personagem duro e amargo, Dora, está havia sido uma professora.

http://www.medioparaiba.com.br/revista/materia.php?l=106c250bce9f32184dfbc62fe8462007

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