terça-feira, 27 de julho de 2010

O Brasil de Mário Vargas Llosa: o carnaval, parte I

Revista Médio Paraíba 17/02/2010 15:44:14

O “Dicionário Amoroso da América Latina” é uma obra de Mário Vargas Llosa, autor peruano, nascido em Arequipa em 1936, que desempenha as funções de jornalista, ensaísta e crítico literário. Passou longos anos na Europa, mas tem um interesse muito profundo pela América Latina. Em 1990 candidatou-se à presidência do Peru, mas não teve sucesso. É um dos poucos autores latino-americanos a ter escrito algo sobre o Brasil, o seu romance A Guerra do fim do mundo. Tem como outras obras relevantes Batismo de fogo, Tia Julia e o escrivinhador, entre outros, e é ganhador de prêmios como o Príncipe das Astúrias e o Cervantes.

Este dicionário contempla gêneros literários como a reportagem, o artigo, a resenha, a crônica e a ficção refletindo a diversificada produção do autor. Publicado no Brasil pela Ediouro em 2006, a obra, enfeixa textos organizados em verbetes produzidos por Vargas Llosa em diferentes momentos de sua vida o que revela inflexões de pensamento sobre figuras históricas e temáticas, além de trazer à tona uma alta carga de subjetividade. Os verbetes tratam de cinema, literatura, política, viagens, memórias e neste texto vamos focalizar nossa atenção no verbete que trata do carnaval no Brasil, de maneira que consideramos a construção discursiva que o autor faz sobre nosso país digna de atenção.

Descrevendo uma estada sua no “Rio de Janeiro”, Vargas Llosa revela suas impressões sobre o carnaval carioca: “(...) se toda a humanidade a vivesse, haveria menos guerras, preconceitos, racismo, fealdades e tristeza, embora provavelmente, mais fome, desigualdades, insanidade e um incremento cataclísmico de natalidade e da AIDS.” Vemos o carnaval na descrição do autor trazendo elementos positivos e negativos. Uma festa que pode tornar melhor quem a vivencia, um momento de encontro entre o diferente de alegria na medida em que frisa menos ´guerras, preconceitos e racismo` e simultaneamente algo capaz de anestesiar a consciência das pessoas, consciência social e de si próprias, quando se refere a ´mais fome desigualdades e insanidade`. Uma festa, também, de encontro tão desenfreado que em dimensões maiores poderia proporcionar um aumento na ritmo de crescimento da população quanto o número de portadores do vírus HIV. Perguntamos: seria o carnaval uma grande orgia?

Seguindo numa narrativa empolgada, Vargas Llosa também escreve que o carnaval: “(...) revela o que deve ter sido, lá atrás na história, as grandes celebrações pagãs, as festas báquicas, sobretudo, aqueles cultos dionisíacos com suas libações desenfreadas para sufocar o instinto de sobrevivência, as copulações coletivas e seus sacrifícios sangrentos”. Neste caso, o autor utiliza sua experiência da observação do carnaval carioca e nos remete para o universo cultural dos povos da Antiguidade Clássica, primeiro a partir da menção a Dionísio, deus grego do vinho, do prazer e da aventura e a seu correspondente latino Baco. Também menciona, na sequência, 70 assassinatos ocorridos no Rio de Janeiro, no então feriado, e a outros 240 acontecidos em São Paulo. A constatação do número de pessoas assassinadas na festa brasileira é feita para remeter aos sacrificados dos rituais da Antiguidade.

Vargas Llosa também se refere ao Carnaval como festa do povo e uma manifestação da “cultura popular”, que considera tão bem explicada no livro do teórico, russo da Literatura, Mikhail Bakhtin sobre Rabelais. Para o autor, é Bakhtin quem melhor explica o que viu no Rio de Janeiro. Mais até que Roberto Da Matta, no seu Carnavais Malandros e Heróis, que enfatiza ser essa festa um momento de exceção onde se confundem ricos e pobres, brancos e negros e é como se o mundo virasse de ponta-cabeça.

Entretanto, devemos lembrar que o que é considerado, por Vargas Llosa, como ´festa do povo` tem sido interpretado recentemente como um evento apropriado pelos setores dominantes da sociedade brasileira na medida em que a festa popular começou a agradar a estes mesmos. Assim, temos o carnaval das escolas de samba do patrocínio dos bicheiros, o carnaval televisionado e espetacularizado, enfim o carnaval que foi visto por Llosa e que o remeteu ao Rabelais de Mikhail Bakhtin. Pois nessa obra, o estudioso russo faz um estudo de como a cultura cômica popular da Idade Média e do Renascimento conseguem se fazer presentes na obra do erudito François Rabelais.

O verbete é finalizado frisando que “Os conservadores podem dormir tranqüilos: enquanto existir o carnaval, não haverá nenhuma revolução social no Brasil. E serão fúteis todos os planos para controlar a libido dessa sociedade de demografia galopante que beira aos 170 milhões”. Notemos que nosso autor utiliza o termo ‘conservador’ para quem considera que pode ficar tranquilo enquanto o carnaval existir. De modo geral, esta palavra costuma ser usada como denominação para setores ou grupos que são beneficiadas por um determinado estado de coisas e organizam seus esforços para que este mesmo permaneça assim. Se, por outro lado, o conceito ´revolução social`, lido como mudança ampla e radical na sociedade brasileira, for considerado como positivo pelo autor, certamente não o é por grupos conservadores e estes, seguindo a visão de Vargas Llosa, têm no carnaval um aliado importante.

http://www.medioparaiba.com.br/revista/materia.php?l=f994dfb4bfa3b370bd64bdf1e7f1778c

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