domingo, 25 de julho de 2010

Superando o racismo na escola?

Jornal da Manhã 27/11/2008

Professor (...) o senhor só fala de história da escravidão, não gosto de história de negros eu tenho dó". Essa é a fala de um aluno do Ensino Fundamental na aula de história numa Escola Pública Estadual. O rapaz, cansado da história de uma relação existiu durante a maior parte da existência do Brasil, questionou seu professor que na sua visão enfatizou demais essa faceta de nossa história. O que mais o incomoda é o fato de que na escravidão a pessoa escravizada era punida fisicamente caso o proprietário, ou um seu preposto, achasse necessário. Não é de estranhar que, no imaginário do jovem aluno, esse seja o aspecto que mais se ressalta desse processo histórico, que foi a 'Escravidão Moderna'. Olhar para nosso passado e focalizar a atenção apenas na violência que os negros aqui sofreram é o equivalente a negar que eram sujeitos históricos com possibilidade de interferir nos rumos da suas vidas das mais variadas formas.

Foram encontrados vários relatos de escravos que se juntavam e assassinavam o feitor pelo motivo de achar que esse estava cometendo excessos na sua função. Em seguida o grupo se entregava às autoridades policiais como estratégia para se livrar da punição senhorial. Proprietários de escravos presenciando tal situação pensariam duas vezes antes de escolher um feitor que não fosse aprovado pelo seu grupo de cativos. Também é muito comum relatos de escravos que conseguiam juntar algum pecúlio em dinheiro litigassem na justiça através de um representante legal a compra de sua liberdade caso seu proprietário não a quisesse vendê-la. E não raro alguns juízes davam ganho de causa aos escravos que para juntar o dinheiro da compra de sua liberdade tinham se valido de uma rede de solidariedade para conseguir dinheiro emprestado e outros favores. É nessa perspectiva que apontam as pesquisas históricas que vêm sendo realizadas em nosso país nos últimos 30 anos: ressaltando a astúcia e as estratégias postas em prática pela população escravizada para tornar sua vida suportável.

Num país onde boa parte da população é afro-descendente também é muito recorrente a associação entre escravidão e cor negra pelo fato de a escravidão negra ter sido preponderante em nosso continente. No caso brasileiro, os negros estiveram presentes em todos os setores produtivos até o ano de 1888. Depois dessa data lhes foi dada uma liberdade, porém, sem grandes preocupações das autoridades políticas em integrar esse grupo étnico de forma mais justa em nossa sociedade. O que se pensava no final do século XIX e início do século XX era em uma política de branqueamento que incentivava a vinda de imigrantes europeus. Desde então, a população negra vêm lutando por espaço e direitos numa sociedade preconceituosa. Recentemente algumas conquistas são dignas de nota.

No inicio de 2003 foi sancionada pelo Presidente da República a Lei 10.639 que prevê a obrigatoriedade do Ensino de História e Cultura africana e afro-brasileira nas escolas de nosso país. Uma grande conquista, não apenas para militantes de movimentos negros como para todos os afro-brasileiros, mas as visões negativas que foram enfatizadas sobre a história dos negros no Brasil são extremamente difíceis de serem superadas. Os manuais escolares estão repletos de imagens de negros escravizados sendo retratados apenas nos ambientes de trabalho, sendo açoitados ou em alguma outra situação degradante. Essa imagem negativa é construída e reforçada no ambiente escolar, o mesmo ambiente onde as crianças negras e brancas também deveriam ter acesso ao conhecimento dos aspectos positivos da presença dos negros em nosso país. Nessa perspectiva, em vez de enfatizar a violência do sistema escravista também, se deve ressaltar as estratégias que os escravos largavam mão para atingir seus objetivos e tornar sua existência um pouco menos dura; a enorme contribuição cultural que os africanos trouxeram para nosso país no que diz respeito à língua, alimentação e arte; as religiões que foram trazidas pelos negros escravizados e foram ressignificadas em nosso pais. Contudo, seria uma grande vitória se esse professor que aqui escreve tivesse desconstruído apenas 10% da visão negativa que permeia o imaginário do jovem aluno sobre a história dos negros e a escravidão.

http://www.jmnews.com.br/index.php?setor=NOTICIAS&nid=174712

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