Revista Médio Paraíba 05/03/2010
Na edição de 03/03/2010, de Veja em reportagem de Ronaldo França, a tônica é divulgar alguns dos primeiros resultados de escolas que adotaram práticas meritocráticas. Entre as constatações de que o Brasil tem quase 98% das crianças na escola que em termos de qualidade é uma das piores do mundo, o jornalista cita autores que pontificam ser a meritocracia o instrumento capaz de atrair as “melhores cabeças” para a docência e também trabalha com resultados de pesquisas do Banco Mundial. Assinala que está acontecendo a guinada de uma cultura inadequada para outra em que já se podem conferir alguns resultados. Vejamos:
“Os números mais novos que apontam nessa direção, vêm de São Paulo, (...) 18% dos alunos da 4ª série do ensino fundamental foram alçados, em português, do nível insuficiente para o adequado”. Sobre estes mesmos dados, Gabriel Perisse http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=579CID003 menciona que “até 2008, ao se divulgarem os dados do Saresp, havia quatro níveis: "abaixo do básico", "básico", "adequado" e "avançado". Destes, somente o "adequado" e o "avançado" eram considerados satisfatórios. Neste ano, porém, surgem apenas três níveis: "insuficiente", "suficiente" e "avançado". O "suficiente" passa a englobar o "básico" e o "adequado" e é considerado como satisfatório.” Muito curiosa tal manipulação dos dados, a ponto de esboçar um resultado favorável às políticas educacionais do senhor Paulo Renato de Souza. Por qual motivo o jornalista se daria a este trabalho? Deixemos em suspenso.
Para Ronaldo França, a lógica do incentivo ganha contornos de depreciação aos professores quando se fala da importância do currículo como ferramenta indispensável para um país com professores de baixa qualificação: “Um levantamento com base em dados da Prova Brasil, aplicada em escolas públicas pelo Ministério da Educação (MEC), constata que, quando o professor se ancora em roteiros detalhados sobre o que e como ensinar, as notas sempre sobem. Num país como o Brasil, onde o nível geral dos professores é baixo, um currículo se torna imperativo — mas é ainda coisa rara. Apenas seis dos 27 estados contam com um, e isso é recente.”
É importante notar os termos “nível” e “baixo” no que se refere aos professores escritos como que uma constatação natural e sem ressalvas. Os professores de hoje são vistos como profissionais de baixo nível. O que espanta não é a constatação em si, mas o fato de isso ser visto e difundido como naturalizado e sem possibilidade nem necessidade de mudança: “o nível geral é baixo”.
Outro trecho da reportagem também merece atenção: “Desde que o nível do ensino começou a ser medido no Brasil, na década de 90, (...) Em certos anos, a qualidade chegou até a cair. É verdade que os números pioraram na medida em que mais gente ingressou na escola, mas esse processo de massificação na sala de aula encerrou-se uma década atrás, e nem por isso o Brasil deixou a rabeira nos rankings internacionais de ensino.”
Com a massificação, realmente, a qualidade da educação caiu e isto ocorreu porque a universalização do ensino não foi acompanhada de uma estrutura básica, como salas de aula e contratação de professores. Dizer que o processo de massificação se encerrou em uma década trata-se no mínimo de uma falácia e a ausência desta estrutura está diretamente relacionada ao fato de o Brasil continuar muito atrás nos, supostos, “rankings” internacionais que aferem a qualidade de ensino. Não enxergar fatos como este é um elemento que está em perfeito alinhado com o direcionamento geral que tem as matérias de Veja sobre a educação no Brasil.
Nestas reportagens percebemos como tônica o elogio da meritocracia na educação bem como a defesa de que esta mesma pode resolver os principais problemas do ensino público. Tal movimento já é esboçado como uma tendência geral e é encampado até pelo governo Lula que lhe tinha alguma resistência. Resta saber quais são os motivos desta verdadeira campanha engendrada por Veja em relação ao viés meritocrático no magistério.
Um caminho é apontado ainda por Perisse, pois a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo não poderia apresentar resultados pouco confortantes quando José Serra pleiteia a Presidência da República. É uma boa possibilidade de leitura, mas ainda deixamos em aberto a questão de porque o viés meritocrático no ensino se desenha como tendência geral.
http://www.medioparaiba.com.br/revista/materia.php?l=d9e6a36185633b80f4a473a26e387bf8
Nenhum comentário:
Postar um comentário