domingo, 25 de julho de 2010

Todos pela Educação?

Jornal da Manhã 05/12/2008

É muito famoso na internet o vídeo de um programa de entrevistas onde o humorista Chico Anysio conta a piada de uma senhora, praticante da profissão mais antiga, que busca se aposentar. Vejamos um trecho das falas da anedota: "Velhinha - Por favor, é aqui que a gente faz petição pra pegar um auxílio à aposentadoria? Funcionário - Sim senhora. Qual é sua profissão? Velhinha - [Prostituta]. (...) Funcionário - Sei, sei. Mas, minha senhora, a sua profissão é de família? Velhinha - Não, criatura, não. Meu pai era professor, minha mãe era professora, duas irmãs professoras... Funcionário - Olha só, família de professores e a senhora vira [Prostituta]? Velhinha - Dei sorte."

Entendemos, preconceitos à parte, que esse trecho da piada é uma maneira bem humorada de criticar a forma com que a educação é tratada por nossos governos com o aval da sociedade. No Estado do Paraná, no primeiro e no corrente mandato do governador Roberto Requião, foram implementados alguns avanços e tivemos, como educadores, conquistas importantes. Podemos citar a realização de concursos públicos, instalação de laboratórios de informática nas escolas, de um aparelho televisor em cada sala de aula, criação do programa de aperfeiçoamento PDE e a lei que reajusta os salários de acordo com um cálculo baseado na inflação. Mesmo reconhecendo a importância das conquistas acima ainda se pode dizer que a senhora da anedota acima tem a sua dose de razão. Nenhuma dessas mudanças altera de fato a arcaica estrutura educacional que temos.

As salas de aula continuam abarrotadas de alunos. Uma reivindicação antiga dos professores é de que a quantia de alunos por turma se limite a 35 e não raro nós professores somos obrigados a trabalhar em salas com mais de 40, um fator que por si só é responsável por boa parte da precariedade do Ensino Público. As últimas correções salariais nem de longe reparam a perda de poder aquisitivo que a categoria sofreu ao longo das últimas décadas, mesmo acreditando que esse fator não seja o que mais descontenta os professores, é inconcebível que um profissional cuja uma das funções é 'avaliar' não tenha tranqüilidade material. O salário achatado obriga os professores a alongar ao máximo possível a jornada semanal outro fator que, além de contribuir com a precariedade do Ensino, extenua os educadores, tendo em vista a quantidade de professores afastados de sala de aula por estresse e outras doenças típicas da categoria, como neuroses, depressões e esquizofrenias.

Atualmente, no Paraná, os professores contam com 20% da sua carga horária para ser cumprida fora de sala com o objetivo de dar cabo do trabalho extra-aula, quantia insuficiente, mas com possibilidade de ser ampliada pela Lei Federal que além de estabelecer um teto mínimo salarial para os professores, o numerário vergonhoso de R$ 950.00, também fixa em 33% da carga horária fora de sala. Um percentual ainda aquém do necessário, que consideramos ser 50%, mas não deixa de ser um avanço.

Curiosamente, depois das últimas eleições municipais um grupo de governadores, Yeda Crusius (RS) do PSDB, Cid Gomes (CE) PSB, André Puccinelli (MS), Roberto Requião (PR), e Luiz Henrique (SC), os três últimos do PMDB, assinaram uma 'ação direta de inconstitucionalidade' (adin) que foi encaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF) com objetivo de embargar a lei que estabelece o piso nacional. No caso paranaense o governador Requião anunciou o envio à Assembléia Estadual de um projeto de lei que fixaria o piso mínimo em R$ 1392.00, o que não alteraria em nada o vencimento dos trabalhadores da Educação nesse Estado da Federação, e se manifestou contrariamente ao estabelecimento dos 33% da jornada de trabalho fora de sala. Um posicionamento lamentável que representa o nível de prioridade que nossos governantes dispensam aos problemas do setor educacional.

Recentemente uma campanha publicitária, com personalidades midiáticas, veio a público fazendo alusão a um movimento intitulado 'todos pela Educação'. Como slogan a proposta parece ótima, mas decididamente a Educação só é uma prioridade no campo das falácias e dos discursos vazios. Enquanto não conseguimos modificar essa situação podemos rir um pouco da anedota da velha senhora que deu sorte por não ser professora.


http://www.jmnews.com.br/index.php?setor=NOTICIAS&nid=189320

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