domingo, 25 de julho de 2010

Previsões para o início do ano letivo

Jornal da Manhã 11/02/2009

Entre dezembro de 1847 e janeiro de 1848 dois jovens prussianos, Karl Marx e Friedrich Engels, ambos de origem burguesa, escreveram a obra que talvez seja o livro mais importante de todos os tempos, o Manifesto do Partido Comunista, mais conhecido como Manifesto Comunista. No fim de 1847, por ocasião do II Congresso da Liga Comunista, Marx ficou encarregado de escrever uma espécie de programa do comunismo, de natureza teórica e prática. O manifesto, que anuncia o fim da burguesia, contrapõe à esta última o proletariado, os trabalhadores. Assim, o que move a história da humanidade é a chamada 'luta de classes'. Na Roma Antiga os patrícios exploravam os escravos, na Idade Média européia os senhores feudais exploravam os servos, no momento da escrita do manifesto os burgueses industriais exploravam os trabalhadores proletários. Uma das preconizações do texto é a educação gratuita de todas as crianças e a última frase do texto é uma conclamação: Proletários de todos os países, uni-vos!

Mesmo que algumas nações não tenham conseguido formar sociedades justas com as idéias do socialismo, o nome de Karl Marx hoje é reconhecido como um dos principais pensadores de todos os tempos, talvez o mais importante. A agudeza do pensamento marxiano reconheceu o trabalho como principal fonte de riqueza. Nesse sentido aqueles que trabalham para outrem enriquecem seus patrões com sua força de trabalho e o suor de seus rostos e recebem como paga muito menos do que vale o seu esforço, o seu trabalho. É evidente, porém, que nos dias atuais ser explorado é muito mais benéfico do que não o ser, ou muito melhor ter um emprego do que não o ter. Assim as idéias do socialismo tiveram muito mais êxito na conscientização dos trabalhadores da sua condição de explorado que não construção de um mundo sem exploração. A organização da classe trabalhadora, em sindicatos e outros organismos de pressão aos patrões e empregadores, fizeram com que estes conquistassem uma série de direitos e garantias sociais. No Brasil esses direitos vieram primeiro que a organização, na década de 1930 com a CLT, mas agora isso não vem ao caso.

Mesmo os trabalhadores tendo conquistado alguns direitos básicos, alguns segmentos, que eu denominaria como estratégicos para o bem estar da população, ainda são tratados por seus empregadores com extremo descaso. Me refiro aqui, em específico, aos trabalhadores da educação, em especial àqueles que no último dia 02/02 retornaram ao trabalho depois de suas férias e no dia 09/02 receberam os alunos nas escolas públicas, os professores da rede estadual de educação do Paraná. Gostaria aqui de desejar aos meus colegas um bom início de ano letivo e não duvido que muitos o terão, por seu próprio mérito e competência, mas uma previsão, nada catastrofista, é a de que o ano não vai ser bom. Isso pelo motivo de que a estrutura educacional continua a mesma.

Gostaria que não fosse possível construir um discurso que use as terminologias patrão em empregado como metáfora para ilustrar a relação entre governo estadual e professores. Se partirmos da premissa que o Estado deve proporcionar educação gratuita e de qualidade para todos, uma conquista inegável, ele tenta fazer isso com o menor custo possível. Nessa racionalização, um único empregado técnico, professor, tem que se responsabilizar pelo ensino, leia-se acondicionamento de conhecimento acumulado, a um maior número possível de unidades, que são os alunos.

Também gostaria que não fosse possível comparar uma sala de aula com uma linha de montagem, onde os alunos, enfileirados, representassem várias unidades em que técnicos, professores, tenham que inserir um determinado conhecimento de seu domínio num determinado espaço de tempo, a hora aula. Ao terminar o trabalho em uma linha de montagem, sala de aula, o técnico, professor, entra em outra e reinicia o processo. As unidades têm de passar por avaliações cíclicas, que chamamos de provas bimestrais, essas averiguam se o conhecimento está devidamente acondicionado. Caso não esteja, a referida unidade vai ter que passar mais um ano na mesma linha de montagem. Assim cada linha de montagem deve conter o máximo possível de unidades e, ao fim do processo de acondicionamento de conhecimento, o mínimo possível dessas deve precisar repetir o processo. Em alguns ciclos as unidades que não se mostrarem capazes de reter o conhecimento devem ser descartadas.

Em tais circunstâncias, não é exagero dizer que a educação está fadada ao fracasso, a mais um ano de fracasso. Entretanto, não devemos nos abater por tais constatações. Professores de todos os países, uni-vos!

http://www.jmnews.com.br/index.php?setor=NOTICIAS&nid=274205

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