terça-feira, 27 de julho de 2010

O debate sobre cotas raciais

Revista Médio Paraíba 22/11/2009

O debate sobre cotas raciais para negros nas Universidades brasileiras têm se evidenciado bastante fecundo. Neste campo de batalha temos visto, veiculados pela imprensa e outros meios, intelectuais favoráveis e contrários a esta política de ações afirmativas. Os contrários afirmam que cotas com recortes raciais podem trazer consequências nefastas para o Brasil e não passa de uma ação com a qual o governo beneficia dirigentes de movimentos e ONGs camuflando problemas que só poderiam ser resolvidos com investimento na Educação Básica. Os favoráveis a estas políticas argumentam que existe uma enorme dívida social do país para com os negros e aumentar o acesso destes ao Ensino Superior é uma das formas de sanar esta dívida.

Talvez o argumento que mais deva ser levado em consideração no grupo dos que posicionam contrariamente à política de cotas, e que é desenvolvido pelo professor Demétrio Magnoli no seu livro “Uma gota de sangue”, é o de que tal política é herdeira do racismo do século XX. Isso na medida em que para beneficiar a parcela negra da população sejam necessários o estabelecimento de parâmetros de classificação racial, prática também realizada pelos nazistas alemães e pelo governo sul-africano do Apartheid. Nesse caso, predomina então a chamada discriminação reversa, na qual separa-se, ou distingui-se, os negros no intuito de beneficia-los, mas a prática tem paralelo com os exemplos acima citados. Essa separação afeta diretamente os indivíduos que são simultaneamente descendentes de africanos e europeus, os mestiços, aqueles a quem a cor da pele não permite que sejam chamados de, ou se reconheçam como, negros nem brancos.

Entre os favoráveis às políticas de cotas, prevalece com mais força o argumento de que o país tem uma enorme dívida social com os indivíduos que carregam melanina e traços no corpo que notoriamente sejam chamados e se identifiquem como negros. Os descendentes daqueles que construíram tudo no território que hoje é o nosso país desde o início do século XVI até o final do XIX quando foram abandonados à sua própria sorte. Aqueles que conseguiram por meio de trabalho, sorte, malandragem ou jeito construir uma vida digna para si e seus familiares podem ter sido menos vitimizados pelo preconceito dos que sempre viram os negros como pura força de trabalho, e consequentemente, indivíduo com menos valor. Foram estes mesmos que ao longo da luta de algumas gerações conseguiram se organizar em movimentos articulados o bastante para inserir representantes na alta esfera política e tornar realidade suas principais reivindicações como ações afirmativas.

O debate que presenciamos no momento atual deflagra tal confronto: negros que conseguiram estabelecer formas de reparação para os seus e resistência dos brancos que se sentem diminuídos ou alijados de seu status de prevalecido. Nesta resistência talvez seja como se dissessem, como bem observou o professor Moniz Sodré, “que saudades da escravidão!” Saudades que sentiria um contemporâneo desta instituição quando escreveu: "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. (...) Ela envolveu-me como uma carícia muda toda a minha infância" (Joaquim Nabuco). Não é o único. O sociólogo Octávio Ianni, descreve uma fala que presenciou do antropólogo Gilberto Freyre: “Dizem que sou saudoso da escravatura” e depois de um silêncio longo: “Sou. Sou sim!”. Passou então a relatar sua infância, sua convivência com pessoas oriundas do escravismo (da casa-grande), contando as histórias de Felicidade, uma negra chamada afetivamente por ele de Dadade.

Entre negros e brancos lutando por espaço temos os mestiços, instados de várias formas a se posicionarem no debate. De que maneira? Talvez uma delas seja tentando ocupar as vagas destinadas a cotistas nas universidades. Vagas que talvez não conseguissem sem tal artifício. São afro-descendentes? Também. Consideram-se afro-descentes? Boa pergunta. Vão se assumir como tal? Possivelmente.

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