terça-feira, 27 de julho de 2010

Educação, ineficácia e má qualidade

Observatório da Imprensa 16/3/2010

Numa matéria de Ronaldo França, "Longe da excelência", em Veja nº 2155 (de 10/3/2010), vemos um texto curto, quase que uma nota, comentando os resultados de um relatório encomendado pelo MEC sobre números das escolas públicas desde a instituição do PNE (Plano Nacional de Educação). Com poucas palavras, o texto consegue transmitir as noções deletérias do semanário em matéria educacional. A tonalidade geral da matéria é negativista e para melhor realçar o atraso brasileiro nestas questões o texto traz a seguinte chamada: "Cenário de atraso – Os índices brasileiros de repetência se assemelham aos africanos".

Vejamos outras passagens:

"(...) o Brasil patinou no enfrentamento de questões cruciais, tais como os elevadíssimos índices de repetência, indicador-mor da incompetência da própria escola."

A formulação acima é ambígua: primeiro o Brasil patinou depois a escola é incompetente no que diz respeito aos índices de repetência. Sobre a patinação do Brasil em matéria de questões cruciais no ensino público concordamos, mas ler que estes índices são indicadores de incompetência da escola merece discussão.

Mas não para por aí: "Outro dado que ajuda a traduzir a ineficácia do ensino é a evasão escolar". Notemos agora a utilização do termo ineficácia e para rematar: "Ainda que a tendência geral seja de melhora do ensino, a persistência da má qualidade nas escolas brasileiras faz refletir sobre a necessidade de acelerar o passo", Frisamos a má qualidade. Não vamos entrar no mérito da discussão dos dados do relatório, que é preliminar, mas a forma como o jornalista caracteriza a educação merece alguma reflexão.

Problema resolvido

Comparar índices brasileiros com índices de países africanos com objetivo de chamar a atenção para o fato de como o Brasil caminha mal na seara educacional só demonstra um imaginário acentuadamente negativo de que goza a terra de muitos dos nossos antepassados. Não se trata de negar a pobreza de várias regiões do continente africano, mas utilizá-la como recurso discursivo para enfatizar matizes negativos do Brasil se insere no campo da indecência intelectual.

No que se refere à incompetência da escola com relação aos altos índices de reprovação, resta saber se esta mesma é incompetente por reprovar alunos em número demasiado ou por não aderir, como no modelo paulista, à premiação e incentivos por bons resultados – como Veja tem apregoado ultimamente.

No caso de a tendência meritocrática efetivamente se espraiar pelas secretarias de Educação Brasil afora, o problema da reprovação excessiva estaria resolvido. Neste caso, seria inviável aos professores reterem seus alunos em determinada série, ainda que o aprendizado não aconteça. Claro que este é um problema que não está na esfera de preocupações da revista da Editora Abril.

Proposição séria

O problema que demonstra ineficácia do ensino público, a evasão escolar, também seria resolvido facilmente com o catecismo de Veja. Parece ser isto que pretende dar a entender o autor da matéria. Ora essa! Uma escola que não consegue impedir que seu público se esvaia de suas mãos como grãos de areia. Resta saber se apenas o receituário decalcado de realidades estrangeiras poderia proporcionar eficácia para a educação brasileira.

Ao lado da má qualidade de nossas escolas também é ressaltado no pequeno texto a necessidade de "acertar o passo". Tal expressão não tem nenhuma relação com as condições já sabidas por quem não tenta mascarar a realidade, responsáveis pela suposta má qualidade no ensino. A qualidade, na ótica desse veículo, não se relaciona com maior número de professores e mais salas de aula, e sim a enquadrar no ambiente educacional as regras de livre mercado.

Para que o remédio de Veja desse resultados efetivos, muito teria de ser investido na educação. Como tais investimentos não são considerados importantes por vários setores da sociedade, é mais fácil detratar o sistema educacional sem nenhuma proposição séria na direção de algum esforço coletivo e vontade política de melhorar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário