domingo, 25 de julho de 2010

Exorcizando Demônios

Jornal da Manhã 19/03/2009

De certa feita o escritor e professor italiano Umberto Eco afirmou pertencer a uma geração que escrevia para mudar o mundo. No Brasil, Inácio Loyola Brandão disse, num programa de entrevistas, que escrevia por ser megalomaníaco e por, numa semana, poder criar uma cidade fictícia. Evidente que não quero me comparar aos 'dois gigantes, para usar parte de uma metáfora do próprio Eco, mas estas duas formulações me vieram à memória quando refletia sobre o móvel que, vez por outra, serve de impulso para que eu me debruce diante de um computador e escreva algumas palavras. Cheguei à conclusão que o que me faz escrever seja, usando uma terminologia cristã, exorcizar alguns demônios, dos muitos, que podem afligir um professor.

O cotidiano escolar permite que percebamos o que circunda no imaginário das crianças, e também do restante da sociedade, algumas características relegadas aos professores. Uma dessas características é a necessidade de saber. Uma situação específica pode ilustrar a questão: "professor, qual era a cor do uniforme do exército brasileiro na Guerra do Paraguai?" - ou na guerra de Canudos não me lembro ao certo. Diante da pergunta do aluno, respondi sem o menor pudor que não fazia a menor idéia, pois entre as minhas preocupações históricas não estão os uniformes do Exército brasileiro e nem a velha história militar, sem querer desdourar a instituição. A resposta do jovem, ardiloso, veio de imediato: "mas você tem que saber que professor é você?" A resposta mais sincera, que em linha gerais pontuou minha resposta, é a de que sou um professor que não se interessa pelas cores do uniforme do Exército. Apesar de até bem pouco tempo as ilustrações dos manuais escolares trazerem estas informações.

No desfecho da situação, descrita acima, refiz o discurso, que chegou a virar ladainha, "nos dias de hoje as informações chegam até nós por vários veículos de informação e a função de um professor, mais do que dominar todos os conteúdos possíveis, é tentar fazer com que os estudantes tenham autonomia o suficiente para selecionar o que assimilar". Talvez o fosse mais politicamente correto, na situação, dizer ao jovem que naquele momento não contava com a tal informação, mas que a traria na próxima aula. Talvez eu o fizesse se achasse o dado importante e também se o aluno não o soubesse, mas em fim... Refletindo, depois do calor do momento, pude perceber algumas coisas interessantes. Uma delas é a de que o referido aluno se trata de um jovem leitor e com alguma inclinação para os temas históricos. A outra é que, mesmo nesse mar de informações em que vivemos, circula no imaginário social que os professores devem dominar tudo no que concerne à sua disciplina.

Felizmente, resisti ao primeiro impulso de dizer ao jovem aluno, um adolescente de treze a quatorze anos, que ele lia coisas muito chatas, como a história das batalhas ou a descrição dos combates, que vêm tomando um vultoso espaço no mercado. Tenho a convicção que minha obrigação como professor seria chamar a atenção para a bela produção acadêmica, literária e cinematográfica latino-americana sobre temas como a Guerra do Paraguai e a Guerra de Canudos.

Um exemplo é o filme de Tabajara Ruas e Beto Souza com o nome de "Netto perde sua alma". O fio da narrativa é baseado nas lembranças do General Netto, sobre a Revolução Farroupilha e a Guerra do Paraguai. Vemos também a história de gente humilde como alguns soldados, e até mesmo escravos, que se prontificavam para integrar as tropas da Farroupilha e depois que a guerra drenava suas energias e até lhes mutilava o corpo eram descartados como peças que não serviam mais. Podemos citar também o filme "Anay de las missiones" que conta a história de uma família de mascates, liderada por sua mãe, que seguem o rastro dos combates da Revolução Farroupilha, tentando encontrar algo valioso nos cadáveres dos combatentes e mantendo relações de comércio com as tropas. Podemos falar também do livro "A guerra do fim do mundo", do escritor e jornalista peruano Mário Vargas Llosa, que constrói uma narrativa, repleta de sertanejos, cangaceiros, coronéis e até mesmo o Exército, sobre a Guerra de Canudos.

Ainda não tive criatividade o bastante para chamar a atenção de meus alunos para estas coisas tão belas. Numa sociedade onde a escola é uma imposição seria de se estranhar se as sugestões dos professores não soassem como algo chato. Nestas circunstâncias, o mais aceitável é que os professores, os depositários de todo o conhecimento, demonstrem aos seus alunos quantas datas e nomes conseguem decorar, ou quantas batalhas conseguem descrever, lembrando inclusive da cor da roupa dos combatentes.

http://www.jmnews.com.br/index.php?setor=NOTICIAS&nid=294799

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