terça-feira, 27 de julho de 2010

O Brasil de Mário Vargas Llosa, demografia e carnaval - parte IV

Revista Médio Paraíba 21/03/2010

A expressão “demografia galopante” usada por Vargas Llosa devido à “libido desenfreada” do povo brasileiro merece reflexão. Claro que devemos levar em consideração que a população brasileira é uma das que mais cresce no mundo, fator reforçado em nossa memória pelas fotos de antigos manuais de Geografia retratando famílias apinhadas de crianças. Ultimamente, estudiosos da demografia têm chamado a atenção para um chamado “bônus demográfico”.

Mário Vargas Llosa atirou a pecha de “demografia galopante” quando, no seu Dicionário amoroso da América Latina, no verbete Carnaval, escreveu que enquanto existir esta festa, qualquer política no sentido no sentido de controlar o crescimento da população brasileira seria vão. Assim questionamos: será que uma festa tradicional realizada uma vez cada ano, com grandes diferenças regionais, pode ser responsabilizada por um suposto e desenfreado crescimento populacional? Independente da reposta, o que nos importa neste momento é a imagem construída pelo autor em seu texto.

Essa mesma imagem também nos trás a noção acertada de que um crescimento demográfico exagerado exige políticas de contenção deste mesmo. Afinal, uma população cada vez maior oferece demanda proporcional no que diz respeito á saúde, educação, saneamento e outros serviços básicos. Também não podemos encarar este fenômeno de forma separada da economia, outro quesito que já fez o mesmo Vargas Llosa caracterizar o Brasil como gigante que quer levantar vôo e cai por terra.

De acordo com José Eustáquio Diniz Alves da Escola Nacional de Ciências Estatíticas (ENCE), entre 1950 e 1980 a economia brasileira cresceu uma média de 7% ao ano enquanto a população cresceu uma média de 2,8% e a renda per - capita 4,2%. Nesse período o Brasil sofreu a passagem de uma sociedade agrária para outra urbana e industrial. Houve um deslocamento da população do campo para a cidade e a importação de novas tecnologias possibilitou um aumento do PIB e da produtividade do trabalho juntamente com a desigualdade na distribuição de renda. Já as décadas de 1980 a 2000, foram marcadas por alta da inflação e crises econômicas. A volta do crescimento econômico se deu em 2004 e pode ser melhor aproveitado se for levado em conta o referido “bônus demográfico”.

O período entre 1950 e 1980 também lançou as bases para uma “transição demográfica” onde aconteceu uma redução dos índices de mortalidade e de natalidade. Como os índices de mortalidade caíram primeiro e mais rápido que os de natalidade, o período registrou um crescimento médio de 2,8% ao ano. De acordo com projeções da ONU, o Brasil está no meio de um processo em que os índices de mortalidade vão continuar estáveis enquanto os índices de natalidade continuarão caindo. As estimativas são de que entre 2000 e 2030 o crescimento demográfico brasileiro atinja uma média de 0,8%.

Uma das consequências desta chamada “transição demográfica” é a alteração da estrutura etária do país diminuindo o peso de crianças, aumentando o de adultos e, posteriormente, o de idosos. Comparando com o período de 1950 a1980, em que cada grupo de 100 pessoas, em idade produtiva, tinha em média 82 dependentes, no período entre 2000 e 2030 o número de dependentes cai para 47. Esse efeito de menor carga demográfica, num nível macro econômico, aumenta a capacidade de poupança que é um ingrediente indispensável para o aumento dos investimentos necessários ao desenvolvimento econômico. É esta a situação chamada “bônus demográfico”.

Depois de 2030 o cenário demográfico não será favorável. Entretanto, as três primeiras décadas do Século XXI, no Brasil, estão marcadas com a projeção de uma população com perfil demográfico e social que podem contribuir para o aumento da produtividade econômica e do desenvolvimento social. Aproveitar esta chance talvez possa desconstruir imagem, do Mesmo Vargas Llosa, do Brasil como um gigante que insinua levantar vôo e volta a cair por terra.

http://www.medioparaiba.com.br/revista/noticia.php?l=3f7206235796b1bd0fdf750be16c4063

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