Revista Médio Paraíba 14/03/2010
A visão que Vargas Llosa demonstra ter sobre a América Latina, no âmbito econômico, oferece dois pontos de vista: um estimulante, cultural, e outro, econômico, desalentador. Para Vargas Llosa é positivo o fato da América Latina se recuperar das ditaduras militares com regimes democráticos abertos ao pluralismo e à crítica, onde não têm sido as elites ou estrangeiros a instalar as democracias, mas o povo. Já o lado desalentador é referente à situação econômica dos países latino-americanos que ou estão estagnados ou retrocedem. Nesse sentido, consideramos a visão do autor acertada quando escreve que:
Uma das mais típicas atitudes latino-americanas para explicar nossos males têm sido a de atribuí-los a maquinações perversas urdidas no estrangeiro, pelos ignominiosos capitalistas de costume ou pelos funcionários do Fundo Monetário Internacional. [Também quando questiona:] E por que o Brasil, gigante que tantas vezes parecia pronto pra levantar voo, acaba tropeçando e voltando ao ponto de partida.
Para o autor, o motivo do insucesso econômico do continente é a adesão de muitos chefes de Estado à Teoria da Dependência, uma formulação econômica que apregoava a substituição das importações como elemento essencial para os países da região. Como nos informa a professora Circe Bittencourt: “(...) no final dos anos 60 [esta teoria] procurava analisar o atraso dos países latino-americanos pela sucessiva onda de situações de dependência: dependência colonial, dependência primário exportadora; dependência tecnológica financeira.” Nos dias atuais essa forma de leitura da realidade econômica e social latino-americano, nascida entre os intelectuais da CEPAL, se encontra em descrédito. Essa Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL) existe desde 1948, mas foi no período entre o período de 1948 e 1960 que ganhou predominância do nacional-desenvolvimentismo e ênfase na substituição das importações pela industrialização.
Já o comentário em que Brasil é visto como o gigante que parecia pronto para levantar voo, mas sempre volta ao ponto de partida, não se distancia das críticas que o governo Lula sofreu no seu primeiro mandato. Algumas podem ser vistas em CorreioCidadania.com.br. A argumentação em geral se situa na linha de que o governo Lula não aproveitou a boa situação econômica pela qual o mundo passava agindo de forma conservadora, com a manutenção de juros altos, não realizando as reformas necessárias e mantendo e até aprofundando algumas das políticas, de cunho ultraliberal, do governo antecessor.
A seara econômica não é a única que chama a atenção do escritor peruano. No verbete intitulado “O Brasil e o Futebol”, o autor se refere ao estilo inconfundível dos futebolistas brasileiros e faz uma comparação desse estilo com a culinária peruana: O que ocorre no Peru com a comida acontece no Brasil com o futebol. Nesse esporte se expressa de maneira privilegiada capacidade criativa de sua gente, alegria, a picardia, o ritmo, a sensualidade e a graça [e para rematar] virtudes que também são atuantes na sua música.
Vemos que o autor se vale de um elemento da sua cultura, a culinária, para melhor expressar seu deslumbramento sobre o futebol e a música de nosso país. Nesse sentido, futebol e música parecem ser elementos da cultura brasileira que impressionam de tal maneira Vargas Llosa, que por sua vez, recorre a um elemento do seu mundo cultural e de sua nação para melhor descrevê-los. A utilização deste recurso parece demonstrar reconhecimento e deferência com elementos culturais de um país vizinho. Entretanto, de acordo com a teoria das representações sociais, descrever um objeto ou fenômeno não raramente é feito de forma ancorada ou ligada a outro elemento familiar para o autor, neste caso Vargas Llosa.
Partindo do princípio que as imagens suscitadas pela economia e pelo futebol, num observador de fora, constituem dimensões da nossa realidade nacional dignas de nota, vemos a representação do Brasil como gigante que enseja se erigir e volta a tombar nas questões de economia. Já no que diz respeito ao futebol vemos ressaltadas características como a criatividade, alegria e a graça, dimensões multifacetadas de nosso país.
http://www.medioparaiba.com.br/revista/noticia.php?l=c87539db5fce8af282ba60ae692b5b6f
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