Jornal da Manhã 18/09/2009
A quem já fez uma faculdade de História ou Jornalismo não passou despercebida uma animosidade existente entre historiadores e jornalistas. Uma das principais críticas daqueles em relação a estes últimos é referente às suas análises por demais superficiais da sociedade e os historiadores são criticados pelos jornalistas justamente por terem uma linguagem empolada que não consegue atingir um público mais amplo ficando restrita aos seus pares. No que diz respeito à produção destes dois segmentos intelectuais, os historiadores escrevem sobre o passado por ofício e os jornalistas não raro também realizam incursões nessa seara fazendo também dos fatos históricos a matéria prima de seu trabalho. Entretanto, parte-se da noção de que o trabalho destes intelectuais é diferente e que jornalistas não escrevem livros de história e vice-versa.
As críticas recíprocas entre historiadores e jornalistas em geral são merecidas. Sobre a superficialidade dos jornalistas, um membro da corporação destes, o professor e escritor Muniz Sodré, já caracterizou seus companheiros de profissão como os intelectuais mais superficiais. Sobre a linguagem hermética dos historiadores, já se reconhece que por muito tempo a História esteve protegida entre os muros da erudição e termos pouco usuais num código próprio entendido quase apenas entre os companheiros de ofício. O que nos dias atuais é motivo de grande preocupação para todo historiador que publica seus textos, pois a busca por clareza, e leveza, na escrita de maneira que cada vez mais pessoas se sintam atraídas por livros de História, é notória.
Objetivo que é atingido, não raro com sucesso, por alguns jornalistas que se dedicam a temas relativos ao passado e por vezes até, erroneamente, foram identificados como historiadores na mídia. Nesta última década, podemos citar a coleção Terra Brasilis do jornalista Eduardo Bueno, que aproveitou a comemoração dos 500 anos de Brasil, e o 1808... de Laurentino Gomes que, por sua vez, se valeu da comemoração de duzentos anos da transferência da família real de Lisboa para o Rio de Janeiro. Ambas as obras mencionadas acima se tornaram fenômenos de vendagem e foram consumidas sob a pecha de livros de História, pois não raro algum comentarista se manifestou espantado pelo fato de um livro de História figurar em alguma lista dos dez mais. Mas uma questão a ser levantada é se obras como as que mencionamos acima são livros de História. Claro que não se trata de depreciar o trabalho dos jornalistas, pois nestes casos são obras de grande qualidade e com um valor informativo muito rico.
A nosso ver, o que pode caracterizar um livro como de História ou de Jornalismo é a metodologia utilizada no tratamento das fontes, uma vez que se trata da principal diferença entre estes tipos de produção. Se um historiador e um jornalista escreverem um livro sobre a mesma temática e utilizarem as mesmas fontes o resultado será muito diferente pelo fato de a formação profissional e o treinamento dos dois serem distintas. Assim, o trabalho do jornalista poderá ser chamado de reportagem, e caso se assemelhe aos trabalhos que citamos acima, uma boa reportagem. Já o trabalho do historiador, poderá ser chamado História, desde que siga os métodos que são referendados por sua corporação.
Claro que escrever História não é privilégio apenas dos historiadores por formação. De imediato podemos nos lembrar de autores que, mesmo não tendo essa formação profissional, produziram obras de cunho historiográfico, como Alberto da Costa e Silva e Evaldo Cabral de Mello, diplomatas de carreira. Mas, frisar a diferença entre reportagem e história é fundamental, uma diferença que se localiza, sobretudo na metodologia.
http://www.jmnews.com.br/index.php?setor=NOTICIAS&nid=425855
Nenhum comentário:
Postar um comentário