terça-feira, 27 de julho de 2010

Sobre professores, historiadores e a Ditadura Militar

Revista Médio Paraíba 29/09/2009

Por ocasião do último 31 de março, o historiador Marco Antônio Villa publicou um pequeno texto na Folha de São Paulo argumentando na direção de que o período ditatorial no Brasil foi um tanto quanto brando comparado com as ditaduras de nossos vizinhos...
O ofício de professor sempre nos leva, a instituições diversas e a trabalhar com colegas e com pensamentos diferentes. Numa noite, de reunião me deparo numa sala de professores com uma pintura retratando o Marechal Deodoro da Fonseca. Posteriormente, eu soube que o retrato estava e está no lugar certo. Outro colega havia visto a mesma imagem e comentou que se tratava de um absurdo: “onde já se viu, nós na Universidade aprendendo que não se deve ensinar a cultuar heróis, agora chegamos à Escola e tem uma foto do Marechal Deodoro!”. A pintura havia sido feita por uma professora de História para um concurso do Exército.

Num outro dia quando escutava a conversa de alguns colegas, meio que ao largo, uma professora comentou que havia conhecido um rapaz que carrega sequelas do período de repressão militar quando fora torturado. Neste instante, a professora, autora da dita obra, que estava postada um tanto mais afastada dos conversantes, se adentrou no assunto declarando o período da Ditadura Militar como ótimo e outra professora amiga sua reiterou que fora o melhor período de sua vida. As duas amigas prosseguiram com o arrazoado: “foi o melhor período pra se viver e pra se lecionar, havia moralidade, não era essa coisa que a gente vê hoje em dia na televisão, podia-se dormir com as janelas abertas, o que os livros didáticos dizem é tudo mentira”.

Entrei na conversa: “bom professora, eu fico feliz que a senhora e nem ninguém da sua família tenha tido problemas nesse período, mas o fato é que muita gente foi torturada e muita gente está desaparecida”. A réplica vem instantaneamente: “há, mas temos que ver o que estas pessoas estavam fazendo, pra quem não fazia nada de errado não tinha problema”. A partir de então vi que qualquer outro argumento seria desperdício de energia. Há alguns dias, pude constatar que as professoras de História, partidárias da Ditadura Militar, têm colegas adeptos.

Vez por outra a Secretaria de Estado de Educação do Paraná (SEED/PR) promove eventos de formação para professores em sua respectiva área. Na data agendada para o evento os professores de História do Núcleo Regional de Educação (NRE) de Ponta Grossa estiveram reunidos, num determinado colégio, para oficinas que visavam difundir a política curricular da disciplina neste Estado. Cada oficina tinha 35 professores e um docente responsável que, de início, propôs que um fizesse sua apresentação e falasse sobre suas expectativas. Depois desta sessão terapêutica, chegamos ao intervalo e caminhando por corredores um colega desabafa: “(...) eu sinto saudades é da ditadura, naquele tempo sim, tinha ordem, se o indivíduo queria estudar bem, se não queria tchau, tinha autoridade.” Cogitei em iniciar um debate, mas seria inútil.

Ao que parece algum apreço ao Golpe de 64 e ao governo dos Generais não é uma exclusividade de alguns professores escolares de história paranaenses com cabelos brancos. Por ocasião do último 31 de março, o historiador Marco Antônio Villa publicou um pequeno texto na Folha de São Paulo argumentando na direção de que o período ditatorial no Brasil foi um tanto quanto brando comparado com as ditaduras de nossos vizinhos latino-americanos. O autor também defende que alguns períodos desta época nem podem ser chamados de ditadura. Pelo que andei bisbilhotando alguns membros da comunidade dos historiadores manifestaram seu repúdio no que diz respeito à postura do professor Villa e da chamada “ideologia folhista”.

O texto pode ser encontrado neste link, foi escrito em tom claramente provocativo e foi considerado como que de caráter revisionista deste período que o Brasil foi governado por Generais, apesar do pouco espaço para o desenvolvimento de razões convincentes, temos a impressão de que estas não existem. Parecem também partilhar desta opinião alguns movimentos sociais e intelectuais que organizaram um ato público contra a chamada "ditabranda".

Aproveito aqui também para repudiar as opiniões de meus colegas saudosistas da Ditadura Militar nestas paragens sulistas do Brasil.

http://www.medioparaiba.com.br/revista/materia.php?l=04bc8f280cf21694b256998171e3f2da

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