terça-feira, 27 de julho de 2010

Salário de fome

Revisa Médio Paraíba 23/02/2010

Em Veja Edição 2151, de 10/10/2010, numa reportagem de Marcelo Bortoloti, vemos mais uma reportagem tratando sobre a educação, uma temática, tão cara ao Grupo Abril. A referida matéria trata de expor os resultados de uma pesquisa encomendada por uma fundação do grupo já citado. Resultados estes que vêem referendar o que é sabido em qualquer conversa de botequim, o ofício de professor é uma profissão que está em baixa, considerando que numa lista de 60 profissões o magistério ocupa a posição de número 36.

As conclusões que o repórter tira do resultado da pesquisa, das quais a principal talvez seja a de que as melhores cabeças não vão se interessar pela profissão docente e até por impedimento da família também já são de pleno domínio do senso comum ou do bom senso. A argumentação segue na direção de que o magistério era uma profissão que estava em alta e simbolizava status na década de 1970, então a escolarização se universaliza e passa a ser realizada em massa, uma situação que torna precária a educação em aspecto amplo. Faltam professores contratados tanto quanto estrutura, salas de aula. Até momento tudo pacífico.

Já a idéia de que para resolver o problema da debandada das melhores cabeças do setor do magistério a implementação de um salário decente não é a principal medida, essa sim, merece ser discutida. Na formulação do repórter, que se coaduna com a visão do semanário, o que conta principalmente na hora de escolher uma profissão é o reconhecimento do mérito intelectual, postura que já vem sendo implementada de forma capenga em alguns Estados da Federação, a exemplo de São Paulo cuja secretaria de Educação está nas mãos de Paulo Renato de Souza.

O argumento de que o salário achatado dos professores não é o principal quesito que contribui para a rejeição da profissão serve apenas para naturalizar a idéia corrente que professores ganham o suficiente, ou de que o salário destes é equivalente ao dos demais trabalhadores. O fato que devemos encarar é o de que Educação pública tem pouco valor, ou dar formação de qualidade para a população simples não é encarado pela sociedade como um todo, desde os dirigentes políticos até às pessoas simples, como algo que valha á pena. Desta forma, a educação de qualidade se situa no nível do discurso enquanto os legisladores da questão criam mecanismos que recompensam com migalhas os profissionais que atingem determinado desempenho.

Para além do salário achatado as condições de trabalho também afugentam as melhores cabeças do magistério. Ora, pensemos, por que um aluno brilhante optaria por uma profissão com “salário de fome”, uma expressão do filósofo Theodor Adorno, em que se leva trabalho para casa e não raramente se é desrespeitado ou até agredido? Reconhecimento profissional, ao contrário do que sugere a matéria, não pode ser apenas premiar a produtividade do profissional da Educação, neste caso a nota de seus alunos. Para tornar o magistério uma profissão viável para os bons alunos as questões que devem ser resolvidas são os baixos salários e as péssimas condições de trabalho.

Na ocasião de sua campanha para a presidência da República o atual senador Cristovam Buarque teve uma expressão no sentido de que para resolver os problemas da educação alguém vai ter que por a mão no bolso. Da mesma forma que tais idéias não tiveram eco na época também agora continuam sem apelo, ainda que vejamos na grande mídia atores e celebridades testemunhando sobre a importância da educação de seus filhos, que certamente não são alunos de escolas públicas, pois sabemos então que estes pais extremados são pessoas que põem a mão no bolso.

Entretanto, a maioria da população, pessoas cujo orçamento familiar não comporta a mensalidade das escolas particulares, terá uma grande vitória quando seus filhos, com formação em escolas públicas, conseguirem ingressar em faculdades cujas profissões não propiciam o respeito nem a remuneração promissora dos ofícios disputados pelas melhores cabeças. Entre estes não está o do magistério.

http://www.medioparaiba.com.br/revista/materia.php?l=fcc5657cc2ab14e75a58c9442f24f49f

Nenhum comentário:

Postar um comentário