Revista Médio Paraíba 27/09/2009
Num domingo à tarde resolvemos assistir a um filme no cinema. É pena que as únicas salas, hoje em dia, fiquem em templos que costumamos chamar de ‘Shoppings’. A escolha o filme ficou atrelada às lembranças evocadas pela infância. Transformers. É pena que muitas das minhas memórias afetivas sejam sobre artefatos culturais construídos em outro país, mas atire a primeira pedra quem nasceu no final da década de 1970 e não é um colonizado.
No enredo do filme um grupo de robôs alienígenas, Autobots, está alojado na Terra para protegê-la de um grupo de robôs inimigos, os Decepticons. Ao que parece é o segundo filme da série e depois de tantos anos e de tantas outras versões ainda guarda os principais personagens da animação da década de 1980. Na série original o líder dos Autobots é Óptimus, que agora no filme recente é Óptimus Prime. O simpático Bumblebee, que se transformava em fusca, é um carrão amarelo com personalidade de cachorro. Outros dois robôs, carros, fazem menção evidente aos divertidos monstrinhos Gremmilins, seguindo uma tendência mais atual das animações.
Entre os robôs Decepticons o líder, Megatron, continua seguido por Starscream, sempre a postos para passar uma rasteira no chefe, e por Soundwave, o mesmo puxa-saco, que tinha um cachorro, Ravage, que se transformava no que havia de mais moderno na época, uma fita K7 ou um disquete de computador. Os Decepticons, que na animação original tinham linhas retas bem definidas, no filme foram mais monstrualizados, o que também aconteceu com os Autobots em menor escala.
O casal romântico, ao gosto norte-americano estadunidense, torna a história melosa o bastante para atender a um público que pode se interessar por um romance forçado entre o jovem que vai para a universidade e uma moça curvilínea, com roupas muito curtas, que conserta motos na oficina de seu pai que é ex-presidiário. Alguns lances de humor garantem boas risadas e as cenas de luta entre os robôs por vezes escapam à agilidade dos olhos.
Mas, longe de ser apenas entretenimento inocente o filme se mostra bastante politizado. Um exemplo disso é que a luta dos robôs também gira torno do energon, a fonte de energia que os alimenta, nada distante de uma das principais questões de nosso tempo que é a substituição da matriz energética. Também ao lado dos Autobots temos o Exército dos EUA, que ocupa um papel significativo na trama e nos combates, conseguindo até reforços militares com países árabes, como a Jordânia, lutando ao lado dos robôs e quase que tirando o papel principal destes que se encontram alojados em dependências deste mesmo exército.
A trama também traz em voga a antiga especulação de que as pirâmides do Egito Antigo não poderiam ter sido construídas por humanos e podendo ter sua existência explicada pela presença antepassados dos Autobots e Decepticons, os Primes, a 17000 anos a.C.. Esta recorrência a uma explicação fictícia também serve para tornar plausível, no filme, tanto a presença de alienígenas entre nós quanto a convivência pacífica entre homens e estes que por acaso são máquinas.
Também não podia faltar uma casquinha, pra não deixar de lado o preconceito tradicional dos estadunidenses com outros povos, desta vez com relação aos árabes, quando num posto militar um carro, Autobot, com os mocinhos da trama, é rapidamente liberado, depois que estes últimos se identificam como americanos, aparecendo como salvadores da pátria, ou grandes benfeitores do mundo árabe. Cinema é apenas entretenimento? Neste caso não mesmo.
Espero que o público brasileiro, e de outros países encontrem outros significados para o conteúdo de filmes como este, produzidos por esta verdadeira máquina de construção de consciências e mentalidades, ideologias e imaginários que é o cinema dos EUA. Também é uma opção, que não se pode descartar, pensar que as palavras desta coluna não passam de neurose. Entretanto, eram muito bons os tempos em que a inocência da tenra idade permitia assistir a um filme sem levar em conta alguns matizes que acabam nos tornando muito chatos.
http://www.medioparaiba.com.br/revista/materia.php?l=0ea073655648e141050bc4e9c382f355
Num domingo à tarde resolvemos assistir a um filme no cinema. É pena que as únicas salas, hoje em dia, fiquem em templos que costumamos chamar de ‘Shoppings’. A escolha o filme ficou atrelada às lembranças evocadas pela infância. Transformers. É pena que muitas das minhas memórias afetivas sejam sobre artefatos culturais construídos em outro país, mas atire a primeira pedra quem nasceu no final da década de 1970 e não é um colonizado.
No enredo do filme um grupo de robôs alienígenas, Autobots, está alojado na Terra para protegê-la de um grupo de robôs inimigos, os Decepticons. Ao que parece é o segundo filme da série e depois de tantos anos e de tantas outras versões ainda guarda os principais personagens da animação da década de 1980. Na série original o líder dos Autobots é Óptimus, que agora no filme recente é Óptimus Prime. O simpático Bumblebee, que se transformava em fusca, é um carrão amarelo com personalidade de cachorro. Outros dois robôs, carros, fazem menção evidente aos divertidos monstrinhos Gremmilins, seguindo uma tendência mais atual das animações.
Entre os robôs Decepticons o líder, Megatron, continua seguido por Starscream, sempre a postos para passar uma rasteira no chefe, e por Soundwave, o mesmo puxa-saco, que tinha um cachorro, Ravage, que se transformava no que havia de mais moderno na época, uma fita K7 ou um disquete de computador. Os Decepticons, que na animação original tinham linhas retas bem definidas, no filme foram mais monstrualizados, o que também aconteceu com os Autobots em menor escala.
O casal romântico, ao gosto norte-americano estadunidense, torna a história melosa o bastante para atender a um público que pode se interessar por um romance forçado entre o jovem que vai para a universidade e uma moça curvilínea, com roupas muito curtas, que conserta motos na oficina de seu pai que é ex-presidiário. Alguns lances de humor garantem boas risadas e as cenas de luta entre os robôs por vezes escapam à agilidade dos olhos.
Mas, longe de ser apenas entretenimento inocente o filme se mostra bastante politizado. Um exemplo disso é que a luta dos robôs também gira torno do energon, a fonte de energia que os alimenta, nada distante de uma das principais questões de nosso tempo que é a substituição da matriz energética. Também ao lado dos Autobots temos o Exército dos EUA, que ocupa um papel significativo na trama e nos combates, conseguindo até reforços militares com países árabes, como a Jordânia, lutando ao lado dos robôs e quase que tirando o papel principal destes que se encontram alojados em dependências deste mesmo exército.
A trama também traz em voga a antiga especulação de que as pirâmides do Egito Antigo não poderiam ter sido construídas por humanos e podendo ter sua existência explicada pela presença antepassados dos Autobots e Decepticons, os Primes, a 17000 anos a.C.. Esta recorrência a uma explicação fictícia também serve para tornar plausível, no filme, tanto a presença de alienígenas entre nós quanto a convivência pacífica entre homens e estes que por acaso são máquinas.
Também não podia faltar uma casquinha, pra não deixar de lado o preconceito tradicional dos estadunidenses com outros povos, desta vez com relação aos árabes, quando num posto militar um carro, Autobot, com os mocinhos da trama, é rapidamente liberado, depois que estes últimos se identificam como americanos, aparecendo como salvadores da pátria, ou grandes benfeitores do mundo árabe. Cinema é apenas entretenimento? Neste caso não mesmo.
Espero que o público brasileiro, e de outros países encontrem outros significados para o conteúdo de filmes como este, produzidos por esta verdadeira máquina de construção de consciências e mentalidades, ideologias e imaginários que é o cinema dos EUA. Também é uma opção, que não se pode descartar, pensar que as palavras desta coluna não passam de neurose. Entretanto, eram muito bons os tempos em que a inocência da tenra idade permitia assistir a um filme sem levar em conta alguns matizes que acabam nos tornando muito chatos.
http://www.medioparaiba.com.br/revista/materia.php?l=0ea073655648e141050bc4e9c382f355
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