Jornal da Manhã 18/12/2008
Revista Mundo Jovem 10/2010
Um personagem que marcou profundamente minha infância foi o Galo Terrível. No seu livro A Bolsa Amarela, Lígia Bojunga Nunes conta a história desse galo que desde quando era um pintinho foi decidido que ele seria galo de briga e botaram na cabeça dele que teria de ganhar de todo mundo. Dizem até que o resto do pensamento foi costurado com linha bem forte para não rebentar. Durante 130 lutas o Terrível venceu e sempre repetindo consigo mesmo que tinha que vencer, pois era isso que estava dentro de sua cabeça. A lembrança desse personagem de literatura infanto-juvenil me foi despertada ao assistir o documentário intitulado 'Criança - a alma do negócio' que trata diretamente da publicidade dirigida ao público infantil.
Entre entrevistas com crianças, pais, especialistas nessa temática e trechos de campanhas publicitárias o documentário incita importantes reflexões e também traz informações baseadas em dados estatísticos do IBGE como a que revela que as crianças brasileiras são as que mais assistem TV no mundo, numa média de 4 horas e 51 minutos e 19 segundos ao dia. Ou também a de que as crianças no Brasil são as responsáveis por 80% da influência de compra dentro de um domicílio o que justifica a linguagem infantil de muitas propagandas.
Uma campanha publicitária, a da boneca Barbie, chama a atenção em especial. Vejamos um trecho da fala de meninas que participam dessa propaganda: "Ser princesa é andar sempre bem vestida. Ser princesa é estar sempre brilhando." É importante frisar que as falas são feitas por meninas menores de 10 anos e maquiadas. Na seqüência deste documentário é entrevistada uma mãe, dona de um salão de beleza, que afirma que as filhas sempre querem fazer as unhas e sempre andar maquiadas. Outra, diz que as meninas começam a usar batom à partir dos três anos, que a partir dos quatro ou cinco já estão bem maquiadas e que a partir dos oito já tem a expectativa de arranjar um namorado. Entre tantos estímulos lançados por propagandas direcionadas a um público infantil talvez essa adultização e sensualização de meninas seja a faceta mais cruel.
O contexto em que ocorrem tais situações não oferece perspectivas alentadoras. Vivemos em uma sociedade onde, na maioria das famílias, pai e mãe estão inseridos no mercado de trabalho. A televisão acaba servindo de babá em muitos casos e tem mostrado uma influência perniciosa que é a de criar desejos desnecessários nessas crianças, criar necessidades. Essa ausência que muitos pais e mães têm na vida de seus filhos por estarem inseridos no mercado de trabalho está sendo compensada por esses de forma a satisfazer esses desejos desnecessários talvez numa tentativa de expiar a culpa de não estar mais presente. Dessa forma, são os pais que alimentam a ilusão introjetada em suas crianças.
Essa espécie de permissividade nociva é notada, no documentário, na fala de uma mãe que afirma fazer suas compras baseada o que seu filho quer comer. O mesmo filho que segundo ela é louco por televisão. O mesmo documentário também traz a informação que, de acordo com a Anvisa, que 30% da população infantil está acima do peso e 15% é obesa. Isso depois de duas crianças terem sido inquiridas sobre o nome de alguns legumes, chamaram a abóbora de pepino e o chuchu foi esquecido. O que não ocorre com os salgadinhos e outros alimentos não recomendáveis cuja propaganda é veiculada em qualquer horário sem demais restrições. Toda a publicidade relacionada ao público infantil carece de regulamentação em nosso país.
O projeto de lei do deputado Luiz Carlos Hauly nº 5.921/2001 que altera o código do consumidor e proíbe a publicidade infantil em qualquer tipo de mídia levantou uma grande polêmica entre os interessados nessa questão que é proibir ou regular a publicidade infantil. Talvez uma regulamentação, como ocorre em vários países europeus, ou restrição de publicidade direcionada ao público infantil, no que diz respeito aos horários e à forma em que são veiculadas, em nosso país seja uma alternativa mais consensual. A imposição de restrições, como ocorre na legislação norte-americana, talvez por nossa recente experiência histórica da ditadura militar, traga consigo a possibilidade de os setores diretamente beneficiados com esse tipo de publicidade alegarem que se trata de censura.
Enquanto não discutirmos e resolvermos essa questão a cabeça de nossas crianças vai continuar sendo bombardeada pela publicidade que lhes diz o que fazer, o que comer e como devem agir, de forma semelhante ao exemplo do Galo Terrível mencionado no início desse texto. Entretanto, com esse personagem ocorreu que depois das 130 vitórias encontrou um galo mais jovem e mais forte, o Crista de Ferro, e depois perdeu.
http://www.jmnews.com.br/index.php?setor=NOTICIAS&nid=218179
Revista Mundo Jovem 10/2010
Um personagem que marcou profundamente minha infância foi o Galo Terrível. No seu livro A Bolsa Amarela, Lígia Bojunga Nunes conta a história desse galo que desde quando era um pintinho foi decidido que ele seria galo de briga e botaram na cabeça dele que teria de ganhar de todo mundo. Dizem até que o resto do pensamento foi costurado com linha bem forte para não rebentar. Durante 130 lutas o Terrível venceu e sempre repetindo consigo mesmo que tinha que vencer, pois era isso que estava dentro de sua cabeça. A lembrança desse personagem de literatura infanto-juvenil me foi despertada ao assistir o documentário intitulado 'Criança - a alma do negócio' que trata diretamente da publicidade dirigida ao público infantil.
Entre entrevistas com crianças, pais, especialistas nessa temática e trechos de campanhas publicitárias o documentário incita importantes reflexões e também traz informações baseadas em dados estatísticos do IBGE como a que revela que as crianças brasileiras são as que mais assistem TV no mundo, numa média de 4 horas e 51 minutos e 19 segundos ao dia. Ou também a de que as crianças no Brasil são as responsáveis por 80% da influência de compra dentro de um domicílio o que justifica a linguagem infantil de muitas propagandas.
Uma campanha publicitária, a da boneca Barbie, chama a atenção em especial. Vejamos um trecho da fala de meninas que participam dessa propaganda: "Ser princesa é andar sempre bem vestida. Ser princesa é estar sempre brilhando." É importante frisar que as falas são feitas por meninas menores de 10 anos e maquiadas. Na seqüência deste documentário é entrevistada uma mãe, dona de um salão de beleza, que afirma que as filhas sempre querem fazer as unhas e sempre andar maquiadas. Outra, diz que as meninas começam a usar batom à partir dos três anos, que a partir dos quatro ou cinco já estão bem maquiadas e que a partir dos oito já tem a expectativa de arranjar um namorado. Entre tantos estímulos lançados por propagandas direcionadas a um público infantil talvez essa adultização e sensualização de meninas seja a faceta mais cruel.
O contexto em que ocorrem tais situações não oferece perspectivas alentadoras. Vivemos em uma sociedade onde, na maioria das famílias, pai e mãe estão inseridos no mercado de trabalho. A televisão acaba servindo de babá em muitos casos e tem mostrado uma influência perniciosa que é a de criar desejos desnecessários nessas crianças, criar necessidades. Essa ausência que muitos pais e mães têm na vida de seus filhos por estarem inseridos no mercado de trabalho está sendo compensada por esses de forma a satisfazer esses desejos desnecessários talvez numa tentativa de expiar a culpa de não estar mais presente. Dessa forma, são os pais que alimentam a ilusão introjetada em suas crianças.
Essa espécie de permissividade nociva é notada, no documentário, na fala de uma mãe que afirma fazer suas compras baseada o que seu filho quer comer. O mesmo filho que segundo ela é louco por televisão. O mesmo documentário também traz a informação que, de acordo com a Anvisa, que 30% da população infantil está acima do peso e 15% é obesa. Isso depois de duas crianças terem sido inquiridas sobre o nome de alguns legumes, chamaram a abóbora de pepino e o chuchu foi esquecido. O que não ocorre com os salgadinhos e outros alimentos não recomendáveis cuja propaganda é veiculada em qualquer horário sem demais restrições. Toda a publicidade relacionada ao público infantil carece de regulamentação em nosso país.
O projeto de lei do deputado Luiz Carlos Hauly nº 5.921/2001 que altera o código do consumidor e proíbe a publicidade infantil em qualquer tipo de mídia levantou uma grande polêmica entre os interessados nessa questão que é proibir ou regular a publicidade infantil. Talvez uma regulamentação, como ocorre em vários países europeus, ou restrição de publicidade direcionada ao público infantil, no que diz respeito aos horários e à forma em que são veiculadas, em nosso país seja uma alternativa mais consensual. A imposição de restrições, como ocorre na legislação norte-americana, talvez por nossa recente experiência histórica da ditadura militar, traga consigo a possibilidade de os setores diretamente beneficiados com esse tipo de publicidade alegarem que se trata de censura.
Enquanto não discutirmos e resolvermos essa questão a cabeça de nossas crianças vai continuar sendo bombardeada pela publicidade que lhes diz o que fazer, o que comer e como devem agir, de forma semelhante ao exemplo do Galo Terrível mencionado no início desse texto. Entretanto, com esse personagem ocorreu que depois das 130 vitórias encontrou um galo mais jovem e mais forte, o Crista de Ferro, e depois perdeu.
http://www.jmnews.com.br/index.php?setor=NOTICIAS&nid=218179
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